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domingo, 21 de agosto de 2016

CAPÍTULO 9: GENÉTICA DO COMPORTAMENTO E INTELIGÊNCIA EMOCIONAL




a) Reminiscências

            Sempre me senti diferente dos demais seres humanos. Não que eu fosse melhor ou pior do que os outros. O fato é que, desde a minha infância, sempre tive problemas de relacionamento com colegas independentemente do sexo. Curiosamente, a maioria dos meus professores me considerava um amigo! Sempre mantive um bom relacionamento com os meus professores e com pessoas mais experientes ou maduras. Infelizmente, nunca consegui entender esta minha predileção pelo conteúdo em detrimento da forma. Esse comportamento se repetiu na época da Universidade e, até hoje, continuo alimentando minha rede de relacionamentos com pessoas ricas em conhecimento e sabedoria... Amor! Fiquei tão preocupado em aprender a teoria que esqueci a prática!
Não me considero uma pessoa totalmente fechada. Meu coração não é de pedra! Sinceramente, creio que a minha família e eu demoramos tempo demais para abrir os olhos diante do problema que estava embaixo dos nossos narizes. Eu deveria ter sido encaminhado a um tratamento psicológico desde muito cedo. Claro que não culpo minha família! Quem sou eu para julgar e condenar alguém?
Sabe quando se junta um grupo de amigos para um churrasco e somente um dos amigos passa mal com a comida. Creio que foi isso que ocorreu comigo.
Existem pesquisas sendo realizadas pela ciência que tentam associar doenças mentais e desvios do comportamento à predisposição genética. Tenho três irmãos e acredito que fui o bilhete premiado ou a bola da vez! Predisposição genética não significa certeza absoluta, mas a probabilidade não foi favorável ao meu desenvolvimento emocional.
Não estou dizendo, com isso, que o fator genético seja o único responsável por tudo que acontece em nossas vidas. Não acredito em destino!

A genética não determina o comportamento!
O nosso DNA possibilita e favorece determinados tipos de comportamento, mas não determina nada. Os genes não restringem a liberdade humana, eles a possibilitam, diz Matt Ridley, autor do livro O Que Nos Faz Humanos, em um artigo para a revista New Scientist.
A genética não é um destino, não determina o que você vai ser. Ela oferece predisposições. Todos estão sujeitos a influências ambientais que podem, sim, mudar a expressão dos genes e fazer com que eles simplesmente não se manifestem, diz André Ramos, diretor do Laboratório de Genética do Comportamento da Universidade Federal de Santa Catarina.
Traços de personalidade são ideias, conceitos culturais: dependem dos olhos de outros e da cultura de um lugar e de uma época para aparecerem e ganharem um nome. O que é inteligência, pedofilia, má educação ou timidez no Brasil pode ganhar nomes bem diferentes no Japão, por exemplo. Por isso, não dá para encontrar a personalidade pura no DNA.
Mas a nossa herança genética pode, sim, influenciar o funcionamento do corpo, que, numa cultura ou em outra, resulta em comportamentos diferentes. Ao nascer, cada ser humano carrega uma composição de 30 mil a 35 mil genes, formações de DNA que ficam ali dentro dos nossos 23 pares de cromossomos. As principais descobertas dos geneticistas do comportamento relacionam os genes à regulação de mecanismos fisiológicos que mudam o comportamento, como impulsividade, vício de determinadas substâncias e memorização. 21


Uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria de Londres, divulgada no ano passado, mostra como o comportamento pode ser afetado por uma interação entre genes e ambiente. Ela teve acesso a um estudo que acompanha desde 1972 a saúde física e mental de mais de 1000 pessoas desde o nascimento. Descobriu que homens maltratados na infância tinham uma probabilidade 10 vezes maior que os demais de cometer crimes violentos desde que, além de terem sofrido maus-tratos, possuíssem pequena atividade da enzima MAOA do cromossomo X, que permite níveis elevados de serotonina. No total, 85% dos homens maltratados na infância e cuja MAOA é pouco ativa exibiram comportamento violento ao longo da vida.
Entre os que possuíam a forma muito ativa, os maus-tratos não aumentaram o comportamento violento. Outro exemplo é o gene FOXP2, no cromossomo 7, isolado recentemente pelo Centro de Genética Humana da Fundação Wellcome, no Reino Unido. Mutações nesse gene causam deficiências específicas de linguagem, ele parece ser necessário para o desenvolvimento da fala. Ele permite que a mente humana absorva, a partir das experiências vividas na 1ª infância, o aprendizado necessário para falar, afirma Matt Ridley.
Com problemas de fala, é mais fácil para a criança desenvolver traços como a timidez. A composição genética tem ainda efeitos indiretos, que acabam influenciando até o comportamento dos pais. É que, por mais que digam o contrário, os pais variam a forma de tratamento conforme o filho. Crianças alegres, que sorriem e olham nos olhos dos pais, costumam deixá-los gratos e mais carinhosos.
Segundo uma pesquisa de 1994 feita pela Universidade da Pensilvânia, alguns autistas que não costumam olhar nos olhos ou expressar emoções têm, por isso, pais indiferentes e um pouco frios. Outro exemplo é a beleza das crianças. Se a composição genética faz uma criança ser considerada bonita, ela terá mais chances de ser o centro da atenção dos pais. E isso influenciará sua personalidade. 22


           Raul Seixas, em uma de suas músicas, diz: “Falou que Deus não quis dá asa à cobra, seria um bicho ameaçador. Mas tem uma peste delas avoando, que o diabo fez enquanto Deus largou!” Esse comentário contido na música mostra-nos como o ser humano alimenta o pecado e a doença.
Na minha infância e adolescência dei asas à solidão. Na escola todos os trabalhos individuais eram comemorados como um Título Mundial da Seleção Brasileira de Futebol. Quando todos os meus colegas me convidavam para ir a uma festa, preferia ficar numa casa de jogos eletrônicos, jogando qualquer coisa que me desconectasse da realidade. Foi na minha adolescência que desenvolvi minhas primeiras teorias acerca das ferramentas chamadas por mim de isolantes sociais. O Computador, o Vídeo Game, o Celular, a Internet, as Redes “Sociais”, são ferramentas que dão uma falsa impressão de conectividade. A experiência de pele é sempre mais enriquecedora. Não estou condenando a tecnologia, mas creio que a diferença entre utilidade e futilidade reside no nível de equilíbrio existente na utilização de tais ferramentas tecnológicas. Além disso, temos que levar em consideração que a solidão é uma ideia muitas vezes distante da realidade. Você pode estar cercado de pessoas por todos os lados, no entanto, considerar-se uma ilha solitária. Uma gota d’água no oceano também pode servir de metáfora para a solidão.
A solidão é um dos sentimentos (fatores ambientais) que causam a depressão. Tanto a solidão quanto a depressão são como pássaros que fazem ninho em nossas cabeças, somos nós que decidimos o tamanho da ninhada.
            Possuo um Notebook (Computador) comprado com muito sacrifício. Tudo em minha vida foi conquistado com muito sacrifício. Cada gota de suor derramado ao longo dos meus vinte poucos anos de luta é diretamente proporcional ao sentimento de satisfação proporcionado pela aquisição dos materialismos tão necessários nos dias de hoje. Jesus disse: “O homem não vive só de pão, mas de toda Palavra proferida pela boca de Deus23. Creio que, se mal utilizado, todo materialismo tem como principal função alimentar o sentimento de solidão. Tudo é uma questão de hierarquia! O importante é aprender a atribuir valores aos bens materiais e imateriais presentes em nossas vidas. Um exemplo maravilhoso de hierarquia é o mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo24. Com relação ao Notebook, foi fácil manter o controle, pois na hierarquia da minha vida a prioridade sempre foi para a solidão. Perder sono para acessar a Internet é uma realidade distante da minha rotina diária e, muito raramente, deixo a comida esfriar na mesa por motivos virtuais... Não perco mais o meu tempo em conversinhas bobas nas Redes “Sociais”... Manter-me desconectado do mundo é uma forma de dizer ao mundo que me esqueça... Para sempre me esqueça... Mais nem sempre foi assim...
A Tecnologia da Informação (TI) muito acrescentou em minha vida. Adquiri conhecimentos que me transformaram num ser humano melhor?! Creio que o uso consciente da tecnologia é um caminho bastante enriquecedor, mas também pode se tornar uma armadilha social muito perigosa, já que na Internet a exposição é quase inevitável.
Os usuários da Internet acham que conhecem todas as pessoas das suas listas de amigos virtuais. Infelizmente, uma foto não revela nada! Quem sabe o que está por traz de um belo sorriso virtual? Amor virtual é a maior “babaquice” que inventaram nas últimas décadas!
Foi na Internet onde experimentei os limites extremos da bipolaridade. No desequilíbrio da balança emocional o meu perfil nas Redes “Sociais” oscilou monstruosamente. Num determinado momento era um Dom Juan e, no instante seguinte, me tornava um Quasímodo.
Claro que agradeço muito à tecnologia pelo fato de ter me proporcionado momentos e encontros especiais em minha vida. Nem todas as minhas amizades virtuais se contentaram com os limites impostos pelo mundo virtual. Graças às maravilhas da Tecnologia da Informação tive a oportunidade de conhecer algumas mentes brilhantes e dispostas a sacrificar sua fortaleza virtual em nome de uma amizade incipiente. Milagrosamente, algumas amizades verdadeiras construídas com base no mundo virtual tornaram-se as pedras angulares da minha rede de relacionamentos no mundo real.
            Curiosamente, meu psicólogo aconselhou, numa das nossas primeiras sessões, que eu criasse um Blog, onde seriam postados pensamentos, reflexões e conteúdos referentes à bipolaridade. Foi daí que surgiu a ideia de escrever um livro! Também foi na Internet onde encontrei as perguntas e respostas que procurava acerca do transtorno que tenho.
Às vezes é necessário perder para ganhar! Aliás, na Oração de São Francisco observamos a seguinte passagem: “Pois é morrendo que se vive para a vida eterna”. Contudo, não existe morte santa quando ela é desejada. A morte santa é fruto de muita luta: luta para viver, amar, sofrer, sorrir e chorar. É por isso que eu só tenho a agradecer por ser o bilhete premiado ou a bola da vez. Talvez eu não seja nada disso! Mas tenho a certeza que cada um de nós nasceu para ser vitorioso. Não existe derrota na probabilidade da vida! Sabe qual é a chance de um espermatozoide fecundar um óvulo? A vida é um milagre! Todos são ganhadores na loteria da vida!
Somos do tamanho dos nossos sonhos e desejamos nunca ter pesadelos, mas são nos pesadelos que devemos nos mostrar fortes e destemidos. Infelizmente, existem alguns que transformam o medo em algo muito maior. Não somos felizes por medo da infelicidade! Não amamos por medo do abandono! Não investimos nosso suado dinheiro em cultura com medo de faltar dinheiro para a comida. Não lemos livros porque temos medo de “perder” o nosso precioso tempo com algo tão “supérfluo”. A nossa ausência às missas é explicada pelo medo que temos de ouvir a verdade!
            Tenho que mudar! Talvez tenha que apanhar um pouco mais. A medida certa nunca chega. Parece até coisa de sadomasoquista! Até admito ser um pouco sádico! Mas a verdade é que não gosto de sofrer. Muitas vezes, não consigo encontrar forças dentro de mim para enfrentar o medo! A vida é doce, mas não é mole! Nunca aprendi a gostar de açúcar, meu chocolate é meio amargo e o adoçante que uso para adoçar o café só o torna mais artificial.
Conheço pessoas que são incapazes de sentir o calor de um abraço, mas isso não os impedem de abraçar. Infelizmente, não tenho certeza se a felicidade foi feita para mim ou se eu fui feito para amar. Apesar disso, não posso me furtar o direito de ser feliz... O abraço não necessariamente ha de vir dos outros... O que torna uma pessoa feliz são os sentimentos refletidos no espelho do quarto... A mudança começa de dentro para fora... O movimento contrário é consequência daquilo que se passa dentro de cada um de nós. Amar e se sentir amado? Sentir-se amado e amar! O caráter de uma pessoa é definido pelo que ela faz quando está sozinha, pois quando estamos acompanhados é comum usarmos máscaras. Solidão... Doce solidão! A minha máscara já caiu a muitíssimo tempo e o minha vida é um livro aberto... Mais um motivo para promover uma mudança interior que proporcione uma melhor leitura da minha vida.
            Os antigos gregos acreditavam na existência de três formas principais de amor: amor ágape (amor de Deus), amor filia (amor fraterno) e amor eros (amor entre homem e mulher).
             Um grande amigo disse uma vez que os grandes problemas do amor eros (amor entre homem e mulher) são os seguintes: “Primeiro devemos arrancar do peito o sentimento de medo e preencher o lugar vazio com amor; logo em seguida, temos que sentir para sermos sentidos, pois o amor é uma via de mão-dupla; depois você precisa abrir a boca e falar com a simplicidade de uma criança”.

b) CASTIDADE, “POBREZA” e OBEDIÊNCIA

Existe uma música de Zé Ramalho, “Avôhai”, que diz: “Ele tem pares de olhos tão profundos que amargam as pessoas que fitar, mas que bebem sua vida, sua alma, na altura que eu mandar. São os olhos, são as asas, cabelos de Avôhai”. Algumas mulheres gostam de homens simples, que não complicam a vida delas. Como tenho uma mente muito complexa e/ou repleta de complexos, elas simplesmente fogem de mim ou se assustam com as minhas parrésias 25.  Contudo, o principal motivo alegado para aderir ao voto de castidade é o receio de causar sofrimento às mulheres da minha vida e esse sentimento engessou minha capacidade latente de reproduzir o amor que guardo em meu peito.
No filme “O Aviador”, Leonardo DiCaprio encarna uma das figuras mais controversas do século XX, Howard Hughes. Esse filme retrata bem o temor que passa pela mente de uma pessoa que está à beira da insanidade. Em um determinado momento a personagem de Leonardo DiCaprio revela a uma de suas amantes o quanto tem medo de enlouquecer: “Enlouquecer seria como um voo às cegas!” A amante responde: “Querido, você me ensinou a voar. É só deixar que eu assumo o controle”. Agora me digam: O que aconteceu quando a loucura tomou conta da mente de Howard Hughes? Não havia mais amor! A única coisa que havia era muito dinheiro! O jovem Howard estava voando às cegas e não se preocupava com os passageiros e a tripulação do avião.
A minha adesão ao voto de “pobreza” é fácil de explicar! Quem tem bipolaridade possui um mau hábito de gastar até o que não se tem.  Gastar muito dinheiro para comprar coisas desnecessárias é um perigo quando se está fora de controle. A pessoa em crise bipolar não tem controle sobre a matéria de um modo geral, costuma consumir e consumir-se por impulso, e gosta de fazer isso. Então nada mais lógico do que aderir ao voto de “pobreza”. Considero incrível uma citação contida numa das músicas da roqueira baiana Pitty: “Eu possuo muitas coisas, mais nada disso me possui”.
            No caso do voto de obediência, sou (ou fui) um funcionário público. Contudo, a obediência que mais me agrada o coração e a mente não é a proveniente da hierarquia no trabalho, mas a que surge do temor (respeito) a Deus.

            c) Inteligência Emocional? 

O Mercado de Trabalho atualmente está focado em dois termos que juntos dão origem a um quase utópico funcionário ideal: Quociente de Inteligência (QI) e Quociente Emocional (QE).
            Cada vez mais o Mercado exige dos funcionários a capacidade de trabalhar em equipe e saber lidar com os mais variados tipos de situações envolvendo um público alvo diversificado. Dentro daquilo que o Mercado de Trabalho considera como Inteligência Emocional existe um grupo de competências emocionais e relacionais que devem ser observadas pelos funcionários de uma empresa, e que podem determinar o êxito de uma Organização. Não esquecendo que tais conceitos também são aplicáveis a núcleos familiares e a instituições sem fins lucrativos. São consideradas competências emocionais: autoconhecimento emocional, controle emocional, automotivação, empatia, relacionamentos pessoais.

Pessoas com inteligência emocional bem desenvolvida tem extrema facilidade de integração e de relacionamento. São comunicativas e criativas, além de possuírem um forte sentido de responsabilidade e uma capacidade notável de adaptação à mudança”. 26

            É claro que não existem métodos científicos comprovadamente irrefutáveis para medição e/ou avaliação do Quociente seja ele Intelectual e/ou Emocional e, justamente por isso, não podemos e nem devemos considerar um portador de bipolaridade como integrante de uma categoria inferior de ser humano. A pessoa que tem Transtorno Bipolar não é um analfabeto emocional! Contudo, a pessoa afetada pelo Transtorno Afetivo Bipolar deve procurar tratamento com profissionais especializados, visando alcançar as competências necessárias ao bom desenvolvimento emocional.
            Concluo este capítulo com um apelo: “Por favor, não tratemos os portadores de bipolaridade como pobres coitados. Os bipolares são tão capazes quanto às pessoas ditas normais”.


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21 Texto em itálico retirado do site:
22 Texto em itálico retirado do site:
23 Mt 4, 4
24 Mt 22, 34-40
25 Parrésia é uma palavra de origem grega frequentemente usada para descrever certos diálogos atribuídos a Jesus Cristo no Novo Testamento.
26 O texto em itálico foi retirado do site:
http://www.futuretrends.pt/fotos/editor2/Inteligencia_Emocional.pdf




FONTE: ARAÚJO, Denio Medeiros de; SIMPLESMENTE BIPOLAR; 1º Edição Digital, Caicó: Editora Blogger, 2016.

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