magazinedmtech

domingo, 21 de agosto de 2016

CAPÍTULO 6: BRINCANDO DE SER DEUS!




a) A história começa...
As crises bipolares muitas vezes se confundem com experiências de ILUMINAÇÃO. A pessoa com bipolaridade torna-se refém da própria fé, envolvendo-se numa trama espiritual tão diabólica quanto divina. Livros e cartas são escritos com o intuito de divulgar toda palavra proveniente de uma mente perturbada e rica em imaginação que crê ser a porta-voz do Espírito Santo de Deus.
O bipolar, muitas vezes, encontra-se numa situação em que é necessário abrir mão de uma parcela substancial da sua para manter o equilíbrio de suas emoções.
Felizmente, quando o tratamento contra a bipolaridade começa a surtir o efeito desejado o equilíbrio emocional torna possível domar a imaginação e a pessoa portadora de Transtorno Bipolar torna-se livre para viver sua fé.
Penso que Deus não cabe num rótulo. Deus é muito mais do que a gente imagina. Para Deus não existem fronteiras. Ele está acima da razão e o nosso coração é pequeno demais para abrigar a herança de amor incondicional que nos é ofertado gratuitamente. Se o ser humano fosse perfeito a fé seria viva e a imaginação seria do tamanho da fé. Infelizmente para a humanidade atual o meu Deus prevalece sobre o nosso Deus.
Quando se está experimentando uma crise de mania/hipomania a pessoa tem a nítida impressão de ser ou parecer com Deus. Você torna-se uma cópia barata do Todo-Poderoso! Dependendo da sua orientação religiosa a mania pode tornar-se uma benção perigosa. Para quem não conhece o termo pejorativo usado anteriormente para denominar o Transtorno Afetivo Bipolar é só lembrar-se das duas faces desta terrível tribulação mental: transtorno maníaco-depressivo. Não tenho nenhum orgulho por ter me considerado um semideus nas minhas crises maníacas/hipomaníacas e tenho menos orgulho ainda por ter me considerado o ser humano mais desprezível do universo inteiro quando das minhas crises depressivas.
            Sempre fui um aluno exemplar na escola. Nunca fui reprovado um só ano sequer nem no Ensino Fundamental e muito menos no Ensino Médio. Como consequência de um Ensino Público que já soube o significado da palavra qualidade e, também, como fruto de muita transpiração intelectual, passei no meu 2º vestibular para o Curso de Ciências Contábeis da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Fui aluno do Curso de Ciências Contábeis até o momento em que o Transtorno Afetivo Bipolar desfigurou a minha saúde. Meus colegas mais chegados reagiram com bastante compreensão em relação ao meu estado de saúde, que se encontrava ainda indefinido devido a um diagnóstico inicial errado de esquizofrenia, mas não entendiam direito o fato de eu abrir mão de um diploma tão perseguido por muitos estudantes capazes de renunciar a momentos especiais de lazer e descanso para conquistar a vaga que, até aquele momento, era minha. Tentei retomar os estudos inúmeras vezes, mas as crises me faziam sucumbir o mesmo número de vezes. Tinha a nítida impressão de que o preço da perfeição era a morte! Meu maior defeito é ser perfeccionista ao extremo! Notas abaixo de 10 eram como uma facada no meio do meu coração. Minha maior virtude é ser cristão! E como cristão enxergava a bipolaridade que eu ainda não sabia que tinha como uma enorme e pesada cruz. Todos os dias e todas as noites que eu não dormia eram como uma caminhada ou uma procissão rumo ao Calvário.
        Minha primeira crise foi fruto de um conjunto de fatores que culminaram na semana da insônia. Havia um Curso de Ciências Contábeis pela metade, notas medíocres que não demonstravam todo o potencial do meu cérebro privilegiado, um Congresso de Contabilidade realizado no período de 14 a 16 de novembro de 2003, em Caicó-RN, no Centro Cultural Adjunto Dias (II EEECIC – 2º Encontro Estadual dos Estudantes de Ciências Contábeis do Rio Grande do Norte) e um aluno brilhante que almejava revolucionar os alicerces da Contabilidade, fazendo com que algumas pessoas materialistas enxergassem em mim um reflexo do Deus que eles negavam veementemente.
Foi no Congresso de Contabilidade realizado no Centro Cultural Adjunto Dias em 2003 que se manifestou pela primeira vez o meu lado maníaco/hipomaníaco. O processo pelo qual se desencadeia uma crise bipolar é relativamente longo e silencioso, principalmente quando se trata de crises maníacas/hipomaníacas. A pessoa com mania/hipomania tende a negar que está em crise pela própria característica da doença. Quase sempre os sinais da bipolaridade só são percebidos no cume da montanha ou no fundo do poço. O pico da minha primeira crise maníaca/hipomaníaca somente começou a mostrar as garras a partir do primeiro dia do Congresso de Contabilidade, quando resolvi fazer uma indagação a um dos maiores palestrantes que conheço no âmbito da região do Seridó potiguar. Minhas pernas ficaram bambas e não consegui expressar oralmente o que o minha mente realmente queria transmitir (fuga de ideias). Para tentar corrigir a besteira e a gagueira do dia anterior, fixei bem os meus olhos no cronograma do evento. Estava lá escrito que o próximo palestrante seria o alvo do fruto de uma noite de insônia. Justamente um dos professores que eu mais admirava e admiro em toda a UFRN.
Na tentativa de dar um soco no estômago dos doutores da lei perdi uma noite de sono pensando numa pergunta aparentemente simples e profundamente impactante que exigia uma resposta mais prática do que teórica: “Como fazer a Gestão do Conhecimento numa sociedade que não valoriza o Conhecimento?” Não poderia imaginar a repercussão que uma “perguntinha” tão simples dessas causaria. Teve professor no Congresso de Contabilidade que me chamou de pensador transcendental e eu sem saber o que era transcendental. Transcendental para quem não sabe é quando algo extrapola os limites da razão. A pergunta feita por mim no Congresso teve como base a Tese de Mestrado de um dos mais admiráveis professores que tive o prazer de conhecer na minha caminhada de estudante universitário. A Tese de Mestrado versava logicamente sobre a gestão do conhecimento. Contudo, queria ir muito além daquilo que a Tese de Mestrado poderia oferecer-me: “gestão das emoções e da imaginação é a última fronteira que separa o ser humano do total equilíbrio entre corpo, mente e espírito”. Pensar demais causa insônia... No meu caso fui agraciado com uma semana inteira sem ter um sono digno dos anjos.
Logo após a realização do Congresso de Contabilidade, consagrei uma semana inteira a escrever meus delírios no papel (já que na época eu não tinha Computador) justamente no horário em que meu corpo, mente e alma clamava por sono. Após escrever muito e dormir pouco, assumi com fervor a “missão sagrada” de distribuir minhas “sagradas escrituras” a três pessoas da minha total confiança. Tive a infelicidade de perdê-los (delírios). Hoje, estou tentando reconstruí-los (delírios), mas os medicamentos não permitem que eu reviva minha semana da insônia.

b) E Deus criou o homem e a mulher... O sexo e o amor
            Agora tenho boas e más notícias para os leitores bipolares de plantão. A pior notícia tem a ver com a libido? Na fase maníaca ou hipomaníaca você parece um animal irracional que só pensa em sexo, mulheres nuas, masturbação, etc. O pecado da luxúria toma conta do seu pensamento transformando-o em instinto puramente selvagem. Brinco muito falando que Deus não criou o animal irracional, mas instituiu o sexo selvagem! Em contraponto, quando a depressão entra em cena a libido atinge níveis negativos alarmantes que nem o Viagra, a catuaba e a garrafada conseguem fazer o “avião decolar”.
         Um exemplo análogo ao do portador de bipolaridade no que diz respeito à forma como vivencia as relações de amor e sexo é encontrado na Biografia do vencedor do Prêmio Nóbel de Economia de 1994, John Forbes Nash, que, por sinal, era portador de uma doença conhecida por esquizofrenia. Contudo, no caso de John Nash, aparentemente não houve falha no diagnóstico inicial, ao contrário do que ocorreu no meu caso. Realmente, existem algumas similaridades bastante acentuadas entre DEPRESSÃO, ESQUIZOFRENIA e BIPOLARIDADE, tornando o diagnóstico do Transtorno Bipolar uma tarefa árdua e de longo prazo. Voltando ao assunto, Nash ficou bastante conhecido por ter sua vida retratada no filme “Uma Mente Brilhante”, vencedor de 4 Oscars (indicado a 8), baseado no livro-biográfico homônimo.


Em 1951, Nash foi para o Instituto Tecnológico de Massachusetts como instrutor de matemática. Lá, conheceu Alicia López-Lardé de Harrison (nascida em 1 de Janeiro de 1933), uma acadêmica de Física de El Salvador, com quem se casou em fevereiro de 1957. Alicia enviou Nash a um hospital psiquiátrico em 1959 devido a sua esquizofrenia; seu filho, John Charles Martin Nash, nasceu pouco tempo depois deste acontecimento.
Nash e Alicia se divorciaram em 1963, mas reunificaram-se em 1970, numa relação não romântica, em que ela abrigou-o como um companheiro. O casal renovou seu relacionamento após Nash ter sido galardoado com o Prêmio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel de 1994. Casaram-se novamente em 1 de junho de 2001.
Nash começou a mostrar sinais de esquizofrenia em 1958, quando ainda estudava. Seu estado agravou-se para a paranoia e foi levado ao Hospital McLean (que abrigou pacientes famosos) em 1959, quando foi diagnosticado com esquizofrenia paranoica e depressão com baixa autoestima.15


Tenho convicção da minha condição de heterossexual. A minha dificuldade em manter relacionamentos com o sexo oposto deve-se ao fato de existirem obstáculos que separam a metade do meu coração da sua imagem no espelho. Tais obstáculos são alimentados pela timidez, pela baixa autoestima e pela necessidade de preservar as pessoas que amo.
Fazendo uma comparação com o caso de John Forbes Nash, a fase onde ocorre o aumento na libido no esquizofrênico localiza-se no período onde predomina a paranoia leve. Já no caso da bipolaridade, a libido aumenta na medida em que o estado maníaco/hipomaníaco penetra no território antes dominado pela depressão e baixa autoestima.
A libido é diretamente proporcional à autoestima! Quando a autoestima está acima da média o amor e o sexo fica maravilhoso. Porém, com a baixa autoestima a libido torna o amor substancialmente indesejável e o sexo impraticável. É neste momento que o marido ou a mulher dá as costas ao cônjuge na cama e diz: “Estou com dor de cabeça”.
Podemos dizer que o aumento excessivo da libido proporcionado pela mania/hipomania manifesta-se claramente na sensação de aumento da capacidade de seduzir o sexo oposto, compulsão por sexo, sensação de melhora no desempenho sexual, tendência a interpretar sinais como troca de olhares de forma destrutivamente erótica, banalização do amor e do sexo. 
Uma peculiaridade dos pacientes portadores de Transtorno Afetivo Bipolar revela-se na sua enorme dificuldade em saber, com total certeza, conjugar o verbo amar. A doença sega o coração de quem a carrega na bagagem da mente.
         A diminuição excessiva da libido proporcionada pela fase depressiva da doença manifesta-se simplesmente pelo desinteresse total ou parcial em seduzir o sexo oposto. Amor e sexo são palavras momentaneamente desconectadas do vocabulário da pessoa com depressão bipolar.
Quando penso em sexo vejo uma relação entre duas pessoas que se amam e querem partilhar esse amor verdadeiramente. Apesar disso, segundo os ensinamentos da filosofia indiana o orgasmo está onde a mente repousa.
            Hoje vemos muita vulgarização sobre essa dimensão do ser humano. É algo tão natural que evoluiu de tabu para promiscuidade e coisificação. As mulheres são servidas de objetos de prazer nas revistas; os homens analisam uma mulher a partir da sua “gostosura”. Veem e observam uma mulher não pela sua sensibilidade ou inteligência, mas pela circunferência do quadril ou pelo tamanho dos seios. A feiura é o primeiro critério de exclusão no ato da conquista.  Os bíceps valem mais do que o conteúdo da mente. A sociedade vive de aparência e rótulos. Valores que subestimam a capacidade reprodutiva do ser humano. Entenda reprodutividade como a capacidade do homem e da mulher em transmitir e receber amor. Essa sociedade do plasticamente atraente, do emocionalmente desvalorizado e do intelectualmente desnecessário torna a prática do sexo um crime contra a humanidade tão bem criada por Deus.

c) E o dinheiro...
        Administrar recursos financeiros é outro grande desafio na vida de uma pessoa com bipolaridade. Quando você está na fase maníaca o termo “queimar dinheiro” começa a fazer sentido na sua cabeça. Já na depressão você só “gasta” dinheiro no tratamento, pois sair de casa é coisa rara e sair do quarto é mais raro ainda. É na depressão que você descobre que o único grande amor da sua vida é a rede de dormir ou a cama. Todos podem te abandonar, mas a vontade de dormir e desaparecer nas cobertas são presenças constantemente ameaçadoras.

d) A história continua...
As primeiras pessoas que percebem as mudanças no comportamento da pessoa com transtorno bipolar são os amigos e a família. Infelizmente, no meu caso tanto meus amigos quanto a minha família não possuem diploma de psicologia ou registro no Conselho Regional de Medicina. E mesmo os psicólogos, psiquiatras e neurologistas de “carteirinha” não possuem o dom da clarividência. Como isso termina? Parece que nunca termina... Quando você acha que termina, aí começa tudo novamente...
            Eu me tratei inicialmente com uma neurologista que sustentou até a morte o diagnóstico de esquizofrenia. Passei aproximadamente oito anos tratando o transtorno errado.
              É bastante comum pessoas com Transtornos Mentais negarem fervorosamente a perturbação mental que as afligem. Passei algum tempo, não muito, evitando tomar a medicação prescrita. Foi muito duro reconhecer que eu realmente estava beijando a porta da insanidade. Tenho histórias que até Deus duvida. Como já foi dito, muitas vezes me enxerguei dentro de uma trama espiritual. Era como se eu fosse algum instrumento de Deus aqui na Terra. Mas não um instrumento qualquer, eu era o instrumento que veio anunciar a parusia! 16
Acreditei por alguns momentos que Deus se revelaria a nós através dos meios de comunicação. Até hoje assisto TV na esperança de enxergar alguma luz no fim do túnel. O que já era ruim ficou pior! Na época da minha primeira crise o BBB nasceu...
Tenho várias histórias boas! Contudo, minha memória parece um mosaico onde as peças do passado deixam marcas rasas na praia da minha imaginação. A profundidade das marcas na areia é proporcionada pelas memórias mais recentes. E ainda tem a água que invade a faixa de areia da praia e tenta apagar as já rasas memórias.
Espero que todos tenham muita paciência! Será uma longa jornada tentar resgatar as reminiscências de períodos da minha vida que deixaram marcas, traumas, lembranças fortes e fracas. O livro só está começando e não tem prazo para terminar! Quem quiser ouvir que ouça, mas saiba que tem muito mais por traz da mente que escreve estas tão breves linhas. O subconsciente é o reservatório donde emanam todas as lembranças. A consciência apenas permite acessar um número limitado de memórias. A maioria das lembranças são memórias póstumas.
Em minha primeira consulta com a neurologista, falei quase tudo que sentia, pois é impossível descrever todos os sintomas detalhadamente logo de cara. Estava tão vulnerável e tudo parecia tão confuso em minha cabeça.
Falei que a minha boca estava proferindo mais verdades do que os ouvidos do mundo suportavam ouvir! E essa é a missão importante que Deus me confiou aqui na Terra! De alguma forma sinto que escrever é fazer a vontade de Deus em minha vida! Sou cristão católico praticante! Não sou Deus, mas às vezes falo e escrevo como se fosse! Sei que o meu lugar não é exatamente aqui e agora! Tudo aquilo que eu escrevo um dia será lido por alguém que necessita dos remédios da alma! Talvez eu seja um dos remédios que a alma necessita, mas nunca serei o médico que os prescreve! Sou simplesmente um escritor (instrumento) de verdades transcendentais e eternas, que entra deus e sai deus, o mundo faz questão de ignorar. Não sou digno de receber o nome de Deus em meu Batismo, mas o meu nome é digno de carregar a enorme responsabilidade de ser filho adotivo de Deus, irmão de Jesus Cristo e templo sagrado do Espírito Santo! Meus caros amigos, Deus não se manifesta sozinho! A Palavra Deus não rima com solidão! Deus se manifesta nas suas criações e eu sou uma criatura de Deus! Todos nós somos convidados a ser um milagre! Eu sou um santo pecador! Um vaso de argila que foi agraciado por Deus com o dom da palavra escrita! Quando estou triste ou deprimido escrevo o seguinte: “Minha vocação se não morreu, está na porta do cemitério”. Sou o contador que não aprendeu a contar e com medo de enfrentar os riscos resolveu enterrar o talento que é de Deus. Tudo é do Pai, mas o Pai não é egoísta! Nós é que muitas vezes renegamos os presentes de Deus em nossas vidas! Sou um simples e humilde servo que pensa não saber servir. Mas Jesus deu o exemplo: crucificado, morto e sepultado, ressuscitou ao 3º Dia. Jesus contava com 33 anos de idade quando desenterraram das profundezas da alma humana todos os talentos escondidos.
            Passados oito anos de idas e vindas a consultórios de psicólogos, neurologistas e psiquiatras, finalmente descobri, analisando meu passado de instabilidades e oscilações de humor, o nome do inimigo e, graças a isso, sinto que me tornei uma pessoa mais capacitada para combatê-lo; e o ato de escrever é uma bela ferramenta para obliterar o espectro bipolar e ajudar pessoas que passam pelo mesmo dilema a se verem livres dos desmandos do transtorno.
O conhecimento da doença que me afligia a mente me fez descobrir virtudes guardadas bem no fundo da minha alma. A humildade diante de um inimigo forte não é sinal de fraqueza e a perseverança na luta pela recuperação da saúde mental é a maior das fortalezas.
Agora, estou decidido a transfigurar a minha história num exemplo de saúde, bem viver, superação, perseverança, amor e .

_______________________________________________________
15 O texto em itálico foi retirado do site :
 http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Forbes_Nash
16 Parusia é um termo teológico que designa a segunda vinda de Jesus Cristo a Terra.




FONTE: ARAÚJO, Denio Medeiros de; SIMPLESMENTE BIPOLAR; 1º Edição Digital, Caicó: Editora Blogger, 2016.

Nenhum comentário:

Postar um comentário