Transtorno
Afetivo Bipolar é o nome dado a uma doença psiquiátrica crônica, ou seja, que
pode ocorrer por toda a vida da pessoa. Essa doença é caracterizada pela
oscilação de humor extremo. Na bipolaridade intercalam-se episódios de grande
euforia e de profunda depressão. Quando os sintomas da doença não estão claros,
existe a possibilidade de a pessoa com bipolaridade ser diagnosticado como
portador apenas de depressão e o psiquiatra pode ser induzido ao erro de
prescrever um antidepressivo sem o devido acompanhamento de um estabilizador de
humor, consequentemente, surgirá o estado emocional conhecido pelo nome de
mania (presente na bipolaridade tipo 1) ou a hipomania (presente na
bipolaridade tipo 2 e na ciclotimia). Também é comum confundir bipolaridade com
esquizofrenia, pois quando o paciente tem crises maníacas ou hipomaníacas
costuma demonstrar alguns sintomas tipicamente esquizofrênicos (psicoses3: alucinações4, delírios5, paranoias6 e/ou pensamentos
desorganizados e confusos). Existem
casos em que o paciente demonstra os sintomas das duas enfermidades
(bipolaridade e esquizofrenia) devido à ocorrência de alterações significativas
nos níveis dos neurotransmissores e hormônios relacionados às duas doenças
(serotonina, noradrenalina, dopamina e cortisol7).
Normalmente, a pessoa com transtorno bipolar demonstra um desequilíbrio nos
níveis da serotonina (“SEROTONINA
– 5 hidroxitriptamina, 5HT – parece ser um dos mais importantes
neurotransmissores: alterações no nível de 5HT estão relacionadas com variações
no padrão de comportamento, como o sono, os impulsos sexuais, humor, entre
outros. Além do cérebro, a SEROTONINA está presente em vários órgãos no corpo
humano, além disso, ele demonstra ser um potente vasoconstrictor”. 8). Distúrbios na produção
e liberação da dopamina no organismo estão mais ligados ao surgimento de
quadros esquizofrênicos. Contudo, quando todos ou alguns desses
neurotransmissores e hormônios (serotonina, noradrenalina, dopamina e/ou
cortisol) estão presentes no organismo em níveis descompensados e/ou em
desacordo com os padrões de um indivíduo saudável, pode ocorrer uma combinação
dos sintomas bipolares, esquizofrênicos e/ou depressivos. O que diferencia de
fato a esquizofrenia e a depressão da bipolaridade são as alternâncias extremas
entre quadros depressivos e maníacos. Não é muito comum o paciente psiquiátrico
ser acometido com mais de uma doença, mas existem casos em que o paciente
mostra sinais de dois ou até três transtornos. Porém, deve ser observado se tal
paciente não é hipocondríaco9
ou portador da Síndrome de Münchausen10.
Os
fatores biológicos que desencadeiam o surgimento de um quadro de transtorno
bipolar são basicamente parecidos aos de outras doenças, como o diabetes,
problemas cardíacos, asma, alzheimer, parkinson, etc. Muitas pessoas tendem a
desenvolver um preconceito com relação as doenças comportamentais e mentais,
mas devemos ter a consciência de que o cérebro é um dos principais órgãos do
corpo humano, semelhante ao coração, pulmão, pâncreas, ou seja, da mesma forma
que ocorrem arritmias cardíacas, podemos considerar como naturais os transtornos da mente. Os principais fatores biológicos
que originam o transtorno bipolar dizem respeito a alterações químicas e de
funcionamento do cérebro, como também problemas de ordem hormonal e imunológica
do organismo.
Outro fator muito discutido e pesquisado
atualmente é o fator genético. Muitos cientistas atribuem ao fator genético
cerca de 60% a 70% da responsabilidade pelo surgimento de episódios de
bipolaridade. No entanto, o fator genético não condiciona o indivíduo a
desenvolver episódios bipolares. Quando nos referimos a fator genético estamos
trabalhando em cima de probabilidades e não existe a certeza de que o fator
genético será o único responsável pelo surgimento do transtorno bipolar. O que
ocorre na realidade é uma predisposição a desenvolver determinada doença.
Predisposição genética é uma tendência natural herdada dos nossos parentes
(próximos ou não) e que potencializa significativamente a capacidade de o
indivíduo desenvolver diversas características, como cor dos olhos, cabelos,
pele e doenças físicas ou mentais. Quando temos algum parente que adoeceu de
câncer ou quando os nossos pais são diabéticos é normal o nosso médico levar em
consideração essas informações na tentativa de fazer uma abordagem profilática
da doença. Assim, uma pessoa que possui parentes diabéticos costuma receber
recomendações do médico no sentido de diminuir a ingestão de açúcares e
carboidrato, visando à prevenção do surgimento da diabetes. Contudo, uma pessoa
que possui um vasto histórico familiar no que diz respeito a doenças mentais
não necessariamente irá desenvolver tais doenças. Existem casos de irmãos
gêmeos que partilham a mesma carga genética, porém apenas um dos irmãos
desenvolve o transtorno bipolar.
Tanto a depressão quanto a
mania/hipomania são desencadeadas por fatores exógenos (decorrentes do
ambiente) e endógenos (decorrentes de fatores biológicos – FATOR BIOQUÍMICO e
FATOR GENÉTICO). Os fatores exógenos caracterizam-se pela presença de estímulo
externo (conflitos familiares, excesso de trabalho, dívidas, perda de algum
ente querido, perda de emprego, alcoolismo, uso de drogas, separações e
mudanças, promoção no emprego, nascimento de um filho, etc.). Os fatores
endógenos caracterizam-se pela presença de estímulos internos (predisposição
genética, níveis descompensados de SEROTONINA, DOPAMINA, NORADRENALINA e/ou
CORTISOL). No entanto, o que ocorre de fato na maioria dos casos é um somatório
dos fatores exógenos e endógenos para a formação de um espectro bipolar. Apesar
disso, podem ocorrer episódios bipolares sem, necessariamente, haver a presença
de fatores estressores ambientais.
Alguns sinais da presença do
Transtorno Afetivo Bipolar podem passar despercebidos por médicos, familiares e
amigos. Contudo, minha experiência mostra que o maior cartão de visitas da
bipolaridade encontra-se intimamente ligado a experiências de iluminação.
Iluminação é um processo pelo qual a
pessoa encontra-se intimamente ligada ao divino. Nas minhas experiências com a
bipolaridade cheguei a beijar as portas do paraíso da insanidade.
Em geral, os episódios bipolares
costumam seguir um regime ou padrão determinado (a depressão costuma surgir
após as crises maníacas ou hipomaníacas). Essa sazonalidade pode tornar as
crises bipolares bastante previsíveis. Existem casos (como o meu) onde ocorrem
manifestações maníacas ou hipomaníacas, intercaladas por períodos de depressão.
Entretanto, para muitas pessoas esse padrão de comportamento sazonal da doença
simplesmente não existe, o que a torna totalmente imprevisível.
Conhecer o que desencadeia os
episódios maníaco-depressivos (distúrbios do sono, consumo exagerado de
substâncias estimulantes e energéticas, como cafeína, cigarro, bebidas
alcoólicas, drogas, etc.) e os sinais de alerta que o organismo dá diante da
iminência de um episódio bipolar pode ser de excelente valia para a pessoa com
bipolaridade, família, amigos, psicólogo e psiquiatra, permitindo o
reconhecimento e a resposta de forma rápida e adequada aos momentos em que a
bipolaridade mostrar tanto a sua face maníaca quanto a depressiva.
A seguir serão citadas algumas das
minhas experiências no estado maníaco e hipomanía
- Mania de perseguição.
- A pessoa com bipolaridade sente que está dentro de uma espécie de Teoria
da Conspiração.
- Ocorrências de dejavús.
- A pessoa em estado maníaco ou
hipomaniaco sente-se como se o cérebro estivesse turbinado, mas a sensação é só
uma ilusão que se for alimentada torna-se perigosa, haja vista que o cérebro
trabalha mais e descansa menos, assim, comparando o cérebro a uma simples conta
bancária, quando você entra no cheque especial o juros abusivo é cobrado com
correção monetária. Com o cérebro não é diferente, se o cérebro é exigido mais
do que pode suportar/oferecer haverá, com certeza, cobrança de juros e correção
monetária em forma de sono/repouso e, como é sabido, a pessoa em estado de
mania e hipomania, geralmente, pensa 1.208.925.819.614.629.174.706.176
Bytes (1 Yottabyte) de vezes antes de dormir.
- Há um aumento considerável da
sensibilidade. Os meus sentidos tornam-se excessivamente aguçados, por exemplo,
as músicas parecem melodias angelicais, os sabores têm o sabor da maçã do
paraíso, sentir o cheiro dos temperos e o aroma das flores é uma sensação
excessivamente agradável, o alimento torna-se mais saboroso, a experiência da
pele torna-se mais intensa, tudo parece mais colorido.
- Comportamento não usual de bom humor e
motivação.
- Otimismo extremo.
- Se a pessoa com bipolaridade for
estudante poderá ocorrer um desleixo nos estudos, principalmente em períodos de
provas, levando a uma queda no desempenho do aluno. Isso se deve a um aumento excessivo
da confiança do estudante. Geralmente, a pessoa com bipolaridade crê que já
sabe de tudo, não necessita aprender mais nada. O excesso de confiança pode
levar o aluno a deixar de estudar pela simples certeza de que já detém
conhecimentos mais do que suficientes para realizar a prova.
- Existe um aumento extremo na libido a
ponto de você cometer indiscrições.
- Aparente aumento da capacidade sedutora
do indivíduo, que se utiliza de um linguajar calculista, porém, inadequado para
ser utilizado no ato da conquista.
- O paciente com bipolaridade no estado
maníaco/hipomaníaco tem uma necessidade extrema de se expressar de várias
maneiras: linguagem verbal, linguagem não verbal, linguagem artística (teatro,
música, cinema, desenho, artes plásticas, etc). É comum o paciente com
bipolaridade falar ou escrever muito (expressando-se quase sempre de maneira
rápida). Se houver alguma aptidão artística poderá ocorrer um excesso de
produção de quadros, músicas, poesias, desenhos, etc.
- Quando se está em surto maníaco/hipomaníaco
geralmente ocorre de o paciente criar um conceito exagerado de si mesmo sob a
forma de alterego, por exemplo, já ouvi depoimentos de pacientes com
bipolaridade que pensavam ser o Super-Homem, Rambo, Deus, algum santo da Igreja
Católica, ou até mesmo um profeta.
- É comum surgir ideias de perfeccionismo
e organização. Geralmente, a pessoa com bipolaridade não admite a ideia de
cometer erros. Falhar em alguma tarefa do trabalho, da Universidade ou até
mesmo em casa pode desencadear crises emocionais gravíssimas.
- O portador de bipolaridade pode
desenvolver algumas ideias de grandiosidade e uma confiança exagerada em si
mesmo, por exemplo, pensar ser o melhor em tudo, achar que possui forças
sobrenaturais que o capacitam a enfrentar qualquer adversidade sem o auxílio de
outras pessoas, etc.
- Perda da noção de perigo ou risco na
execução de determinada atividade. Existem casos de motoristas com Transtorno
Afetivo Bipolar guiando o carro numa velocidade extremamente alta (muito acima
da permitida). Também pode ocorrer de num assalto à mão armada a pessoa com
bipolaridade enfrentar o bandido de mãos vazias e achar que nada de mal vai acontecer
porque ele (a pessoa com bipolaridade) é Deus, um guerreiro imortal, um
super-homem, um mestre das artes marciais invencível, etc.
- Falta ou excesso de sono. A dificuldade
de dormir geralmente é mais presente nos pacientes acometidos pelo estado
maníaco ou hipomaniaco. O excesso de sono quase sempre está ligado à depressão.
- Em alguns casos há um aumento da
espiritualidade do portador da bipolaridade, podendo ser acompanhado de
alucinações, visões, sonhos recorrentes ou qualquer outro tipo de manifestação
do Divino. Geralmente, o paciente sente-se na obrigação de cumprir com uma
missão dada pelo próprio Deus ou por alguma outra entidade espiritual. É
possível ocorrer fases onde o indivíduo se sente conectado a tudo que o rodeia.
- É comum haver períodos de profunda
inspiração acompanhados de momentos de excessiva transpiração. Há uma grande
necessidade de se manter em atividade constante, sem descanso, sem paradas para
uma boa noite de sono reparador, sem pausas para alimentação, enfim, o paciente
bipolar deseja manter-se em atividade por tempo indeterminado. Aumenta a
necessidade de praticar atividades estimulantes que comportam elevado risco e
consequências negativas (excesso de compras, apostas, desinibição sexual,
brincar de roleta russa com arma de fogo, saltar de pára-quedas sem o
pára-quedas).
- A pessoa com bipolaridade manifesta um
comportamento desassossegado e agitado, desenvolvendo uma tendência a se
distrair facilmente.
- Irritabilidade e temperamento explosivo
são sintomas bastante comuns nos quadros de mania/hipomania.
- Pode ocorrer uma diminuição ou aumento
descontrolado da alimentação, chegando ao ponto de a pessoa com Transtorno
Bipolar ser acometido de desnutrição e/ou obesidade.
- Planos e sonhos muito grandiosos
caracterizam essa fase da doença. Você pensa e sonha em fazer mil e uma coisas
e, no final, não consegue realizar nenhum dos seus projetos.
- Existe uma queda na concentração.
Torna-se excessivamente desgastante a tarefa de estudar, ler livros, jornais e
revistas, assistir televisão, etc. A concentração é tão afetada que o simples
ato de atravessar um semáforo de trânsito torna-se uma missão quase suicida.
- Pensamentos acelerados são comuns nos
quadros de mania/hipomania. Você não consegue controlar seus pensamentos de
forma satisfatória a ponto de passar noites acordado, tentando achar a cura
para todas as doenças do mundo, solucionar a crise mundial, combater a
corrupção, enfim, resolver todos os problemas usando somente caneta e papel...
- Graças ao pensamento acelerado é comum
ocorrerem fugas de idéias, ou seja, o pensamento flui tão rapidamente e em
tamanha quantidade que fica difícil lembrar-se dos pensamentos essenciais ao
bom entendimento e compreensão dos raciocínios. Geralmente, quando isso
acontece, o paciente com bipolaridade não consegue organizar corretamente seu
raciocínio, tornando o diálogo um pouco confuso. Você pensa algo e dois milhões
de pensamentos depois você já esqueceu o que pensou há dois minutos.
- Na mania e hipomania há um crescente
despertar da imaginação e da criatividade.
- Podem ocorrer lapsos de prodigalidade,
ou seja, um descontrole econômico-financeiro, com episódios onde há um aumento
do consumo e um gasto excessivo de dinheiro.
- Surgimento de um comportamento
megalomaníaco.
- Aumento da agressividade e da
irritabilidade, não necessariamente com utilização de violência física. Quase
sempre a agressividade e a irritabilidade se manifestam através de insultos,
palavras ásperas, gestos obscenos. Socos são desferidos no ar ou em paredes na
tentativa de amenizar o sentimento de fúria sem, para isso, machucar
diretamente as pessoas próximas.
- Estado de humor excessivamente ou
levemente eufórico, com um aumento considerável de energia. O paciente
encontra-se disposto a qualquer coisa (inclusive a cometer suicídio). Existe um
sentimento de felicidade muito intensa proporcionada pela sensação de estar em
evidência e ser o centro das atenções.
- A pessoa com bipolaridade acredita
possuir habilidades sensoriais e extrassensoriais fora do comum,
considerando-se especialmente bem dotado físico, social, mental e
espiritualmente.
- Ocorre, às vezes, do portador de
bipolaridade achar que detém a capacidade da clarividência, podendo ocorrer
episódios em que a pessoa é impelida a atravessar o sinal de trânsito sem
observá-lo, gastar rios de dinheiro jogando na loteria com a certeza da
vitória, perceber como o trânsito se comporta para tentar antecipar eventos aparentemente
imprevisíveis como acidentes ou imprudências de motoristas.
- No estado de mania/hipomania não é
recomendado que a pessoa com bipolaridade assuma a direção de veículos de
transporte (bicicletas, carros e, principalmente, motos). É comum o surgimento
de idéias de grandiosidade como super-poderes (indestrutibilidade) ou
capacidades sobrenaturais (imortalidade). Na mania/hipomania o ciclista pode
pensar que não precisa dos itens de segurança, o motorista do automóvel acha
que não precisa usar o cinto de segurança e o motociclista pode dispensar o uso
do capacete.
- Outra fonte de perigo na vida de
portadores de bipolaridade pode ser encontrada nas Redes Sociais da Internet. A
exposição de fotografias, vídeos e textos comprometedores, a tentativa de interagir
com pessoas estranhas, a busca por conteúdos pornográficos e violentos, a
possibilidade de interação sexual via internet pode contaminar os pensamentos
da pessoa. O surgimento da sensação de imunidade virtual que transforma o mundo
virtual num ambiente altamente seguro (aparentemente seguro) pode levar o
paciente com Transtorno Bipolar a baixar arquivos contendo “spams”, “cavalos de
tróia” (trojans), “vírus de computador”, “malwares”, etc. Se a pessoa tiver
conhecimentos avançados de informática pode considerar-se um hacker capaz de,
através do uso da linguagem de programação, criar programas maliciosos, cuja
função é infectar os computadores de várias pessoas conhecidas ou não, visando
a autoafirmação.
- O Transtorno Bipolar, quando não tratado
adequadamente, torna a pessoa tanto vulnerável quanto ameaçadora no que diz
respeito ao mundo real e virtual.
- Existem
ainda casos onde o portador de bipolaridade pensa ser capaz de interpretar
códigos secretos, ler e interpretar a Bíblia Sagrada com a inspiração do
Espírito Santo, colocar-se como personagem das Sagradas Escrituras, assistir um
programa da televisão (acessar a internet, ler revistas, livros, jornais,
quadrinhos, etc.) e achar que existem mensagens subliminares escondidas por
trás de cada cena ou informação contida no referido programa ou mídia. No meu
caso em particular, lembro claramente de um episódio onde uma amiga e eu
assistíamos ao programa global “A Turma do Didi”. Na ocasião, minha amiga
assustou-se com minha reação ao assistir o programa. Minhas risadas eram muito
mais do que alegria ou felicidade. Minha experiência com a bipolaridade me fez
enxergar nos meios de comunicação uma forma bem eficiente de comunicação que
poderia, muito bem, ser utilizada por Deus para manifestar todo o seu poder e
glória. Claro que ao assistir o programa global “A Turma do Didi” minha amiga
somente conseguia enxergar um comediante fazendo o seu trabalho (divertir o
público). No entanto, eu enxergava em Renato Aragão (Didi) um instrumento nas
mãos de Deus, capaz de transformar o mundo em algo melhor e mais habitável. Na
minha percepção maníaca/hipomaníaca o papel do comediante não consistia apenas
em fazer as pessoas rirem, mas, ao exercer o seu papel na sociedade, o
comediante estava na realidade evangelizando, educando, edificando uma nação
inteira através da arte cômica, utilizando a mídia televisiva como meio de
comunicação capaz de alcançar o maior número possível de pessoas
(telespectadores). Imaginava que os meios de comunicação seriam uma ótima forma
de manifestação do divino. Deus entrando nas casas de praticamente 100% dos
brasileiros através da Televisão, do rádio, da Internet, do cinema, dos
jornais, das revistas, dos quadrinhos, etc. Quando entrei no meu estado de eutimia 11 passei a perceber
a realidade por trás dos meios de comunicação. O dinheiro que patrocina
programas como BBB (Big Brother Brasil), A Fazenda, Pânico na TV, Rebeldes,
Malhação, fez com que os meios de comunicação não fossem mais considerados, na
minha percepção eutímica, os melhores espaços para a manifestação do divino.
Atualmente, creio que Deus se manifesta através dos vasos de argila e não
através dos cálices de ouro. Tenho a ligeira impressão que um escritor de fundo
de quintal (que desenvolve seu trabalho de cordelista, cronista ou romancista,
e tenta vender a sua produção nas feiras livres das cidades do interior do
nosso Brasil, para ganhar o pão com o suor proporcionado pela transpiração
inspirada de um artista da terra) tem um poder evangelizador, educador e
edificador infinitamente maior do que a alienação proporcionada pelos meios de
comunicação. No final das contas, percebo que os meios de comunicação são
consumidos pela massa e que Deus prefere manifestar-se aos poucos.
- Na mania e hipomania é notável a
presença de uma personalidade expansiva, excessivamente bem humorada, com uma
enorme capacidade comunicativa, porém, com pouco senso de ridículo, podendo
comunicar-se e expressar-se de maneira inadequada em alguns momentos e
situações.
- A vida pode ser encarada como um jogo
sem regras e sem limites. A morte torna-se o próximo nível a ser alcançado no
jogo da vida.
- A pessoa com transtorno bipolar tem dificuldade
de se apegar às coisas, às pessoas e à própria vida. O desapego exagerado pode
gerar problemas graves, como o desinteresse pelo dinheiro, surgimento de idéias
comunistas, aquisição de bens considerados supérfluos que rapidamente são
colocados de lado, necessidade de enfrentar a morte para tentar entender ou dar
sentido à vida. Nos períodos de crise, doações de grande vulto podem ser feitas
com o propósito de livrar-se do “excesso” de dinheiro. Percebe-se também o
surgimento de um sentimento excessivamente altruísta, por exemplo, a pessoa
sente-se disposta a dar a própria vida por alguém. A pessoa afetada pela
bipolaridade quase sempre tem poucos amigos.
- Falta de julgamento.
- O indivíduo com Transtorno Afetivo
Bipolar (TAB) no estado maníaco/ hipomaníaco torna-se um perdulário... As
pessoas acometidas pela bipolaridade desapegam-se facilmente dos objetos ao
mesmo tempo em que se apegam patologicamente as pessoas... Pode ocorrer uma
crise tão forte que a pessoa não consegue apegar-se aos bens materiais!
- Há uma tendência de falar exageradamente...
Segredos são colocados como cartas na mesa... Um livro aberto que deveria
permanecer fechado!
Na hipomania a pessoa experimenta alguns
dos sintomas (sinais) descritos acima em níveis toleráveis. As crises
hipomaníacas não trazem grandes prejuízos à pessoa com bipolaridade. O estado
hipomaníaco não costuma comprometer seriamente relações amorosas, familiares,
de amizade e de trabalho. No entanto, quando a hipomania não é tratada
adequadamente, o que geralmente acontece é a ocorrência de uma evolução do
quadro hipomaníaco para o maníaco.
No estado emocional conhecido como
maníaco alguns dos sintomas (sinais) descritos acima podem fazer-se presentes
em escala bem maior. Um episódio pode ser enquadrado nessa categoria quando a
pessoa está em fase maníaca há pelo menos uma semana ou necessita de
hospitalização. Na mania é comum o surgimento de quadros psicóticos, como
paranoias, mania de perseguição, alucinações, delírios ou pensamentos
desorganizados e confusos. É possível que a pessoa com bipolaridade sinta
bastante dificuldade em se inserir no Mercado de Trabalho, pois os sintomas da
bipolaridade tendem a desestabilizar as relações familiares, no trabalho e no
cotidiano dos portadores do transtorno. Entretanto, atualmente há tratamentos
muito eficientes e que podem trazer um bem estar para o a pessoa com
bipolaridade. Na maioria dos casos as pessoas com bipolaridade têm uma vida
normal (estudam, trabalham, namoram, casam e têm filhos).
O quadro depressivo é bastante comum
tanto na bipolaridade tipo 1 (com predominância de mania) quanto na
bipolaridade tipo 2 (com predominância de hipomania).
Temos aqui que diferenciar uma depressão
bipolar de uma depressão reacional.
A depressão bipolar não se caracteriza por uma
simples tristeza e a mania/ hipomania não pode ser confundida com o sentimento
de felicidade. Altos e baixos são sentimentos comuns a todas as pessoas. O que
vai definir se uma pessoa é ou não bipolar é a intensidade e a frequência das
instabilidades emocionais. A instabilidade emocional extrema e periódica entre
o excesso de felicidade causada pelos quadros maníacos e hipomaniacos e a falta
de iniciativa causada pela depressão bipolar podem ser indícios de que está se
instalando um quadro bipolar.
“A
depressão reacional está intimamente ligada ao conceito de perda. Ela
caracteriza-se por períodos de instabilidade emocional que afetam o indivíduo
negativamente, ou seja, o indivíduo torna-se triste e desanimado por vários
motivos: a pessoa perdeu um ente querido, foi mandado embora do trabalho
(demitido), está passando por problemas familiares, etc. Em todos esses casos
nós estamos lidando com fatores externos que podem desencadear uma depressão.
Quando falamos em Transtorno Bipolar não se trata apenas de depressão
reacional. É natural que se passe por essa depressão reacional. Contudo, no
Transtorno Bipolar nós estamos falando de uma depressão psiquiátrica, ou seja,
uma depressão que não se cura apenas com palavras. É extremamente necessário um
acompanhamento psiquiátrico, tendo em vista a necessidade de um tratamento
medicamentoso, associado a sessões de psicanálise, visando esclarecer o
paciente e a família acerca da doença. Como já foi dito, existem os conceitos
de depressão exógena e endógena, mas creio que o conceito mais correto a ser
utilizado no diagnóstico de transtorno bipolar é o de depressão endógena.
Assim, a depressão bipolar é uma depressão endógena, ou seja, ela surge dentro
de nós, mas ela pode aparecer dentro de nós graças a fatores externos.” (Guilherme
Torres - Psicanalista)
Na depressão bipolar costuma-se
experimentar algumas sensações negativas:
- Geralmente os quadros depressivos surgem
logo após os surtos de mania e/ou hipomania, levando a pessoa a entrar numa
espécie de ressaca moral. Nesse momento, torna-se difícil entrar em contato com
as pessoas que presenciaram o surto maníaco e/ou hipomaníaco. É comum a pessoa
evitar entrar em contato com o ambiente de trabalho, colegas de trabalho,
amigos, família, etc. Normalmente, quando há perdas consideráveis (perda de
emprego, abandono dos estudos, fim de relacionamentos amorosos, etc.) a pessoa
com bipolaridade costuma tocar no assunto insistentemente, enquanto que a
família tenta apagar o rastro da decepção.
- Afastamento do convívio social.
- É absolutamente normal que na fase de
depressão a pessoa perca o interesse em atividades que antes lhe traziam
prazer. As pessoas que falam muito se tornam caladas, os apaixonados pelo mundo
virtual que gostam de navegar pela internet não encontram forças para ligar o
computador, escritores famosos deixam de escrever, etc.
- Falta de energia e cansaço são bastante
comuns nos quadros depressivos. Tarefas simples, como ligar o computador, tomar
um banho, alimentar-se, escovar os dentes, tornam-se tão difíceis quanto usar
um paletó de madeira. Enfim, o desleixo com a aparência pode ser facilmente
detectado pelas pessoas que convivem com o portador do transtorno bipolar.
- Quase sempre a pessoa com bipolaridade
apresenta uma lentidão física, social, mental e espiritual. Não há disposição
para a prática de exercícios físicos, a ascensão social torna-se uma montanha
tão alta que nenhuma semente de mostarda e capaz de movê-la, o raciocínio e a
concentração são seriamente comprometidos, a prática da oração e da meditação
exige um esforço enorme e desgastante.
- Há casos em que a pessoa com
bipolaridade torna-se agitada, podendo apresentar algumas características
também presentes nos quadros maníacos e hipomaníacos, como a perda de sono.
Contudo, nos quadros depressivos, manifesta-se com mais frequência à falta de
iniciativa e o excesso de sono. Nas crises depressivas a rede de dormir e a
cama transformam-se no refúgio do guerreiro. O excesso de sono atinge a maioria
das pessoas com episódios de depressão bipolar.
- Em geral, são nos episódios de depressão
que o instinto de sobrevivência encontra-se menos intenso e o pensamento
suicida configura-se numa prática recorrente. Na depressão costuma-se pensar
quase compulsivamente na ideia de suicídio, mas dificilmente a ideia torna-se
uma realidade. Devido à presença da falta de iniciativa, a pessoa em crise
depressiva costuma planejar várias maneiras de cometer o suicídio, podendo
praticar o ato extremo somente quando experimenta uma crise de mania/hipomania.
Na depressão a ideia de suicídio surge na mente devido a um sentimento de que a
vida se tornou um fardo difícil de carregar. A vida transforma-se numa fonte
inesgotável de dor, angústia, sofrimento e agonia. A morte seria o único meio
de fazer a dor psicológica parar. Acredite, a dor proporcionada pela depressão
faz qualquer paciente terminal pedir “arrego”.
- A depressão bipolar pode gerar um quadro
de disfunção alimentar severo (bulimia, anorexia, obesidade). A pessoa em crise
depressiva encontra-se vulnerável a instalação de um quadro de desnutrição. O
apetite aumenta ou diminui drasticamente e pode ocorrer um excessivo ganho ou
perda de peso.
- A pessoa com transtorno bipolar alimenta
o sentimento de inutilidade e de culpa.
O portador de bipolaridade sente-se incapaz de realizar aquilo que é da
sua competência. Anos de estudo e aprendizado são subestimados pelo sentimento
de inutilidade. Apesar de a pessoa ser altamente capaz de realizar variadas
tarefas a depressão impede a pessoa de enxergar o seu potencial produtivo.
Quando a depressão impede a pessoa de exercer as suas atividades normalmente é
bastante comum ocorrerem prejuízos muitas vezes irreparáveis, como a perda de
um emprego e a incapacidade de reinserção no mercado de trabalho. Tudo isso,
alimenta um sentimento de culpa na pessoa que a faz questionar sua importância
para a sociedade ou núcleo familiar. A pessoa considera-se culpada por todos os
problemas sociais, econômicos e familiares proporcionados pelos seus
desequilíbrios emocionais quando, na verdade, o culpado é o transtorno bipolar.
A pessoa costuma sentir-se um fardo pesado e impossível de ser carregado.
- Durante as crises depressivas a
concentração é seriamente afetada. Praticar atividades que exigem muita
concentração pode acarretar um aprofundamento da depressão, tendo em vista que
a pessoa com bipolaridade percebe-se incapaz de realizar as atividades simples
e, muito mais ainda, as complexas, quando, na verdade, a doença é a responsável
pela limitada capacidade de concentração. Com isso, a pessoa com bipolaridade
deve ter consciência que essa limitação é passageira. Quando o tratamento
começa a mostrar os resultados desejados, a concentração volta ao seu estado
normal e o portador de transtorno bipolar pode retomar as suas atividades. É
comum a pessoa afetada pela doença sentir dificuldade em lembrar-se de
episódios passados e/ou memorizar novos acontecimentos.
- Na depressão o pensamento flui de forma
lenta e equivocada.
- A tomada de decisão é profundamente
afetada pelos pensamentos voltados ao negativo.
- A pessoa com depressão bipolar
desenvolve uma postura extremamente inibida (corpo curvado, cabeça inclinada em
direção ao chão e olhar perdido num profundo vazio).
- Os relacionamentos familiares, as
amizades e as relações no trabalho são profundamente afetados pela fase depressiva
da bipolaridade. A falta de diálogo (fruto de uma mente nublada e sem conteúdos
de relevante importância) parece ser uma das reclamações recorrentes das
pessoas com transtorno bipolar.
- Chorar sem um motivo aparente é um dos
sinais de alerta indicativo da instalação de um quadro depressivo.
- Na depressão surge um sentimento de
vergonha proporcionado por uma opinião mais alta (elevada) com relação às
outras pessoas. O estado depressivo costuma alimentar e ser alimentado por uma
preocupação patológica com o juízo alheio. A pessoa com depressão costuma
depositar muito crédito e importância na opinião de pessoas alheias ao
problema. Pode ocorrer de a pessoa com depressão entrar num mundo imaginário
onde reina a confusão e o conflito, onde os juízos e opiniões configuram-se, ao
mesmo tempo, um exílio social imposto por pessoas preconceituosas (muitas vezes
pertencente ao círculo familiar) que não compreendem a dimensão da problemática
bipolar, ou simples suposições construídas pela mente doentia do indivíduo com
o intuito de justificar e reforçar o estado de instabilidade emocional (esse
comportamento psíquico inadequado muitas vezes é involuntário). No entanto,
algumas suposições podem ganhar uma consistência mais densa quando alimentadas
pelo preconceito, estigma e discriminação. O isolamento e a solidão são as
ferramentas utilizadas para não enfrentar (desviar) os olhares condenatórios
das pessoas envolvidas direta ou indiretamente nos momentos de crise e
instabilidade.
- O isolamento social, a insegurança e o
medo são presenças marcantes, principalmente após episódios
maníacos/hipomaníacos e durante as crises depressivas.
- Sintomas psicossomáticos podem surgir
tanto nas crises maníacas/hipomaníacas quanto na depressão bipolar: aumento da
sudorese, batimentos cardíacos acelerados (arritmias cardíacas), impotência
sexual, distúrbios alimentares (bulimia, anorexia, desnutrição, obesidade),
distúrbios do sono (insônia, sonolência excessiva).
- Autocrítica.
- Baixa autoestima.
- Surgimento de pensamentos
autodestrutivos (suicidas).
- Sentimento contínuo de tristeza.
- Apatia.
- Perda da esperança.
- Incapacidade em realizar/concretizar
sonhos pessoais e profissionais.
- Incapacidade em acreditar que pode se
curar e levar uma vida normal.
- Falta de motivação para realizar tarefas
simples do dia a dia, como tarefas domésticas, rotinas de trabalho e/ou
manusear um microcomputador.
- Falta de desejo sexual.
- Autonegligência.
- Surgimento de uma persistente sensação
de fadiga proveniente da má qualidade do sono.
Geralmente, logo após a ocorrência de
episódios de mania e hipomania, instala-se quadros de depressão. As crises
depressivas são alimentadas por um sentimento de ressaca moral. A ressaca moral
nasce na medida em que o portador de bipolaridade começa a perceber e
reconhecer as consequências desastrosas de uma conduta socialmente
repreensível. A diferença entre ressaca moral e vergonha reside na culpa.
O período de ressaca moral não fica
restrito aos momentos de depressão. Quando a pessoa entra num estado eutímico
costuma apresentar resquícios (vestígios) da ressaca moral: forte tendência ao
isolamento, o diálogo perde o vigor e aumenta o caráter introspectivo e
introvertido da personalidade. A ressaca moral faz com que as palavras se
tornem vazias e o comportamento profundamente fechado.
“Talvez
o maior drama da bipolaridade deva-se ao fato de a pessoa perder a
personalidade. A pessoa com bipolaridade é a tradução do caos do lado de fora e
internamente é o que te leva à morte”. (Cássia Kiss – Atriz)
Além dos quadros maníacos, hipomaníacos e
depressivos, também existem os episódios mistos, onde a pessoa experimenta
simultaneamente quadros maníacos, hipomaníacos e depressivos por pelo menos uma
semana. Devido ao profundo turbilhão de emoções, a pessoa acometida por casos
de bipolaridade mista pode apresentar sintomas psicóticos e necessitar de
internação. A pessoa pode apresentar um sentimento de euforia acompanhado de um
profundo vazio interior. Podem ocorrer mudanças repentinas de humor da alegria
à tristeza e da mansidão à agressividade.
a) Tipos mais comuns de bipolaridade
- Bipolaridade
tipo 1:
Com prevalência de episódios maníacos ou mistos intercalados por quadros
depressivos.
- Bipolaridade
tipo 2:
Com prevalência de episódios hipomaníacos intercalados por quadros depressivos.
- Bipolaridade
Mista:
Um episódio misto ocorre quando a pessoa apresenta sintomas de mania/hipomania
e depressão, simultaneamente, durante pelo menos uma semana. A pessoa pode
experimentar variações de humor excessivamente rápidas (felicidade, tristeza e
irritabilidade).
- Ciclotimia: A característica
essencial do transtorno é a persistente instabilidade do humor, ou seja,
recorrentes variações de humor, com prevalência de episódios de hipomania e
distimia ou depressão leve (na ciclotimia há uma ausência de episódios de mania
e depressão maior). A ciclotimia é considerada uma versão mais branda do
distúrbio bipolar, uma vez que os episódios de hipomania e distimia ou
depressão leve tendem a se apresentar com menor intensidade/gravidade. Além
disso, as variações de humor ocorrem num período de tempo muito curto (cerca de
quatro dias ou menos). Há casos em que as variações ocorrem no mesmo dia. Na
maioria das vezes os sintomas persistem por pelo menos 2 (dois) anos e o maior
período de tempo em que o paciente está livre dos sintomas corresponde
aproximadamente ao período de 2 (dois) meses. As alterações de humor são normalmente
percebidas pela pessoa como sendo desvinculadas a eventos de seu cotidiano. O
diagnóstico torna-se uma tarefa muito difícil sem um prolongado período de
observação e/ou sem a devida observação do histórico da pessoa com ciclotimia.
A doença é comum em quem possui parentes com transtorno bipolar tipo 1 (devido
ao fator genético) e alguns indivíduos com ciclotimia acabam desenvolvendo o
transtorno bipolar tipo 1 ou tipo 2 com o passar dos anos e com a evolução da
doença. Ela pode persistir durante a vida adulta, cessar temporariamente ou
permanentemente, ou ainda evoluir para casos mais severos da síndrome bipolar.
- Outras formas de bipolaridade: Pessoas diagnosticadas com ciclotimia podem apresentar depressão
leve/moderada e hipomania por um período inferior a 2 (dois) anos. Podem
ocorrer, também, casos onde a pessoa experimenta simultaneamente episódios
maníacos e hipomaníacos intercalados por períodos de depressão. Existe também a
possibilidade da ocorrência de episódios independentes de mania e hipomania
intercalados por crises depressivas. Há casos em que a pessoa experimenta uma
crise maníaca seguida de uma crise depressiva e, logo após o período de
depressão, instala-se um quadro hipomaníaco. A intensidade das crises pode
variar bastante. As combinações possíveis são inúmeras e a sazonalidade
incerta. O interessante é saber que as crises bipolares costumam dar sinais e a
interpretação correta desses sinais pode facilitar o tratamento da doença.
b)
Quando
digo, ninguém acredita
O cérebro é um dos principais órgãos
do corpo humano! Podemos considerar o cérebro um dos maiores milagres da vida.
Nenhum outro órgão do corpo humano possui tantas funções como o cérebro. O que
as pessoas devem e precisam entender é que o cérebro também adoece.
Posso utilizar o exemplo de pessoas
diabéticas e hipertensas para explicar a dimensão do preconceito, do estigma e
da discriminação que existe acerca das doenças da mente. Alguém que possui
diabetes e pressão alta torna-se dependente de inúmeros medicamentos. Tenho
inúmeros amigos hipertensos e diabéticos, mas nunca contei o número de caixas
de remédios contidos nos armários de medicamentos deles, mas creio que eles
utiliza aproximadamente uns 6 (seis) tipos de medicamentos diferentes para
tratar tanto a diabetes quanto a pressão alta. No meu tratamento de
bipolaridade são utilizados apenas 3 (três) medicamentos de uso controlado.
Meus amigos não demonstram em nenhum
momento alguma forma de resistência ao tratamento da diabetes e da pressão
alta. Nunca presenciei nenhuma manifestação de preconceito pelo fato de meus
amigos terem diabetes e pressão alta. O diálogo acerca da diabetes e da pressão
alta flui numa facilidade infinitamente maior do que nos casos relativos à
saúde mental. Muitas vezes me vi ajoelhado no banco da igreja conversando com
Deus: “Como gostaria de trocar minha
bipolaridade por toda a insulina que existe neste mundo!” Frequentemente,
as pessoas são levadas a pensar que diabetes e pressão alta são doenças de
pessoas normais enquanto que o transtorno afetivo bipolar é uma doença que
atinge apenas pessoas anormais.
O que torna os medicamentos para
tratamento de transtornos mentais de uso controlado não é a gravidade das
doenças, mas a importância que o cérebro ocupa na hierarquia fisiológica do
organismo humano. Podemos comparar o cérebro a um rei que administra todo o seu
reino (corpo humano) de maneira justa e equilibrada. Os demais órgãos do corpo humano
(coração, pâncreas, rins, pulmões, estômago, intestino, etc.) são os súditos
que esperam uma ordem do rei para exercer as suas funções normais. Qualquer
desordem no funcionamento do cérebro desencadeia uma reação adversa nos demais
órgãos do corpo humano (o coração bate mais acelerado, aumenta à sudorese do
corpo, o intestino tem o seu funcionamento desregulado, etc.). Com isso,
torna-se necessário um maior controle dos medicamentos destinados a regulação
do funcionamento do cérebro, tendo em vista que o uso indiscriminado de tais
medicamentos traz muitas consequências desastrosas ao bom funcionamento do
organismo.
Uma pessoa com problemas cardíacos
torna-se dependente de medicamentos que regulam o funcionamento do coração, as
pessoas hipertensas dependem de medicamentos que regulam a pressão arterial, os
diabéticos necessitam de insulina para baixar o nível da glicose no sangue,
porque ainda existem preconceitos, estigmas e discriminações acerca das doenças
da mente? A resposta a essa pergunta pode estar guardada nos valores sociais
que são involuntariamente desconsiderados pelos portadores de problemas
mentais. Um cardíaco pode ter um infarto do miocárdio, mas nunca morreria
cometendo alguma indiscrição, como tirar a roupa em público, falar palavrões sem
sentido, defecar dentro de um prato de comida ou consumir a urina depositada
dentro de um copo descartável.
A visão que as pessoas têm com relação aos
portadores de transtornos mentais também sofre forte influência do histórico no
combate e tratamento das doenças da alma. Ouvi muitos relatos de pacientes
psiquiátricos já idosos que contavam algumas atrocidades cometidas contra eles,
por exemplo, tratamentos com eletroconvulsivantes (que ainda vêm sendo
utilizados) e o uso de medicações pesadas consumidas em doses cavalares,
tornando os portadores de transtornos mentais muitas vezes pessoas dopadas e
sem iniciativa. Todo esse trauma deixado pelo antigo sistema manicomial se deve
em parte ao tratamento desumano dispensado aos portadores de transtornos mentais.
Da mesma forma que os antigos leprosários eram utilizados, em épocas não tão
remotas, para separar as pessoas com hanseníase do convívio social, os
manicômios tinham o propósito de limpar as sujeiras deixadas pelos portadores
de transtornos mentais. Criou-se, assim, uma cultura que igualou pessoas com
transtornos mentais a criminosos perigosos. Embora existam crimes onde o fator
psicológico seja o principal responsável, não podemos generalizar e condenar o
todo pelos crimes de apenas uma parte. Também não devemos alimentar o estigma
de que pessoas diferentes são incapazes de conviver harmonicamente em
sociedade. Com o tratamento adequado uma pessoa com transtorno bipolar e uma
pessoa saudável se equivalem e as diferenças tornam-se ocultas.
c)
A
mente humana liberta e aprisiona
Uma doença geralmente traz consigo
estigmas que podem ser alimentados pela própria pessoa, pelos familiares,
amigos, colegas de trabalho. Falo muito aos meus amigos que o conhecimento
liberta, mas também pode aprisionar. Somente podemos aproveitar o caráter
libertador do conhecimento quando possuímos uma mente preparada para
absorvê-lo. O que acontece comigo e acredito que deva acontecer na vida de
muitos que leem esse livro é uma supervalorização da doença em detrimento da
saúde. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, os portadores de bipolaridade
podem ter uma vida absolutamente normal, porém, para que isso seja possível,
faz-se necessário que a família, os amigos, os colegas de trabalho, enfim,
todos os que se relacionam diretamente com a pessoa portadora da bipolaridade,
criem um ambiente acolhedor e incentivem o familiar a perseverar no tratamento
psicológico/psiquiátrico, além disso, torna-se muito importante a
conscientização do próprio portador de bipolaridade no sentido de crer que toda
crise é passageira e o tratamento surtirá o efeito desejado na medida em que a
pessoa for adaptando o pensamento e o comportamento a um estilo de vida
saudável. Apesar de parecer difícil, torna-se necessária a tarefa de limpar a
mente da ressaca moral e do sentimento de impotência diante da doença.
Estigmas
são crenças estereotipadas baseadas somente nas características negativas de um
grupo particular de pessoas (por exemplo, pessoas portadoras de doenças
mentais). Uma pessoa que é considerada parte de um desses grupos fica
automaticamente associada às características negativas relativas a ele. Essas
crenças distorcem e contaminam o status e a reputação da pessoa. O estigma vem
de fontes externas (por exemplo, da família, de amigos, da comunidade). Por
vezes, quando a pessoa experiencia as atitudes estigmatizantes de outras
pessoas, começa a acreditar nelas e pode começar a enxergar-se como sendo menos
capaz e menos merecedora que os outros, algo que é denominado autoestigma. 12
Exemplos que podem ratificar o que foi
dito acima são encontrados nas seguintes crenças: pessoas com transtorno
bipolar são perigosas e, por isso, apresentam-se como uma ameaça a sociedade;
homossexualismo é uma doença; os negros fazem parte de uma raça inferior;
idosos e deficientes são pessoas inválidas.
Quando essas crenças estigmatizadas
transformam-se em ações concretas no seio de uma sociedade podemos dizer que o
estigma mostrou sua marca através da discriminação. Tais crenças estigmatizadas
já fizeram surgir muitos movimentos discriminatórios: Ku Klux Klan, Apartheid,
Nazismo, Neonazismo, Hooligans, etc.
O estigma e a discriminação são
alimentados pelo preconceito e o preconceito é alimentado pela falta de
conhecimento. O conhecimento liberta na medida em que combate o preconceito, o
estigma e a discriminação. No entanto, uma mente imatura pode transformar o
conhecimento do transtorno em uma espécie de armadilha perigosa, onde o verbo
ter desfigura o verbo ser. Quando a pessoa com bipolaridade conhece o transtorno,
mas não faz nenhum esforço para vencer as limitações e as barreiras impostas
pelo referido transtorno, de nada serviu o conhecimento. Nós, seres humanos,
temos o poder de transformar aquilo que conhecemos através de ações concretas,
vivendo cercados por pessoas que nos amam independentemente das nossas virtudes
e vícios, e percebendo o quanto nós somos mais do que um simples transtorno. Às
vezes, demonstramos certa tendência a nos resumirmos a uma perturbação mental
qualquer quando na verdade existe muito mais de nós por trás da máscara da
bipolaridade. Em muitos momentos de crise nos fundimos de tal forma com o ter
bipolar que fica difícil para as pessoas que estão do lado de fora do problema
perceber as nossas virtudes (qualidades, talentos e pontos fortes). Geralmente,
quem não conhece o portador de bipolaridade só consegue enxergar a fachada que
esconde uma gama enorme de valores. Não se consegue, assim, enxergar a essência
do ser!
Na teoria tudo se resume a manter o foco
no equilíbrio: tratamento, adaptação, vantagens e qualidade de vida.
Entretanto, na prática o meu foco se voltou quase que totalmente para a
perturbação mental. É possível ter qualidade de vida quando se enfrenta um
adversário terrível como a bipolaridade? A nossa inteligência emocional é quem
irá determinar o grau de comprometimento da nossa qualidade de vida! Ter o
conhecimento do mal que nos aflige não basta para enfrentá-lo... Torna-se
necessário uma postura combativa. Nunca desanimando diante de uma crise
iminente... Sempre encontrando forças dentro e fora de si para enfrentar com
determinação e coragem os desafios que se apresentam.
Embora algumas pessoas pessimistas e com
uma visão negativa da realidade (como é o meu caso) tenham uma facilidade maior
de enxergar apenas a adversidade no fato de ter bipolaridade, não se pode
deixar oculto o lado positivo da bipolaridade. Ter bipolaridade é ser alguém
especial, capaz de sentir o mundo a sua volta sobre uma perspectiva
diferenciada. Nossa sensibilidade torna-se nossa maior virtude. Podemos
perceber os detalhes de uma obra de arte, ouvir uma orquestra sinfônica,
degustar um excelente prato de comida, sentir as fragrâncias das flores e dos
perfumes, tocar a pele de uma mulher e sentir as vibrações causadas pela nossa
simples presença. São bastante comuns os relatos de pessoas que tiveram
experiências muito profundas de intimidade com Deus. A experiência com Deus
torna-se mais intensa, viva e altamente (excessivamente, extremamente e
excepcionalmente) pessoal. A bipolaridade permite um contato com o Deus que é
pai, mãe, filho, primo e irmão.
Costumo dizer que criador e criatura são suficientemente passionais para fazer
loucuras por amor. Uma das maiores vantagens em ter bipolaridade encontra-se no
fato de o bipolar viver muito intensamente todas as experiências proporcionadas
pela vida espiritual e temporal. Embora, muitas vezes, assumam condutas
irresponsáveis e inconsequentes, as pessoas com bipolaridade podem dizer de
peito aberto e cheio de orgulho, que tiraram da vida o melhor e o pior que a
vida é capaz de oferecer.
Experiências negativas também são
enriquecedoras na medida em que elas permitem um crescimento como pessoa
humana. A depressão pode transformar uma pessoa arrogante em humilde do dia
para a noite. A mania/hipomania pode transformar uma pessoa compulsiva num fiel
seguidor da palavra prudência. Várias pessoas com bipolaridade já me disseram
que para enxergar apenas o que a vida tem de positivo é necessário perceber a
graça escondida por trás das experiências negativas. Assim, um transtorno pode
ser uma bela oportunidade para a pessoa rever condutas e valores que antes não
eram tão importantes. Conheço pessoas que deixaram de fumar graças ao
diagnóstico de hipertensão arterial. Pessoas que nunca deram valor a vida
respiram fundo ao receber um diagnóstico de câncer. Existe um ditado popular
que diz o seguinte: “Só aprendemos a amar
aquilo que perdemos”. Muitas vezes, quando o equilíbrio sai pela porta dos
fundos o amor à vida entra e faz a festa.
Creio que devemos tirar da vida o melhor
que ela tem a nos oferecer independentemente da situação ou do momento em que
nos encontramos. Existe um ditado que diz o seguinte: “Na política brasileira esquerda e direita estão do mesmo lado”. Num
ponto de vista bastante positivo, podemos dizer que tanto o transtorno quanto o
equilíbrio são como times de futebol que jogam do mesmo lado do campo, ou seja,
independentemente do resultado do jogo a pessoa humana sempre sairá ganhando.
No final das contas, o equilíbrio exerce um
papel estabilizador e o transtorno exerce um papel transformador. Contudo,
nunca devemos enxergar no papel transformador das tribulações mentais uma
ameaça, mas, acima de tudo, devemos enxergar a tribulação mental como uma
oportunidade de crescermos como pessoas humanas.
___________________________________
3 Psicose é um quadro
psicopatológico clássico, reconhecido pela psiquiatria, pela psicologia clínica e pela psicanálise como um estado psíquico no qual
se verifica certa "perda de contato com a realidade".
5 Um delírio
(às vezes denominado delusão) é caracterizado por crenças mal
fundamentadas fortemente enraizadas na vida de uma pessoa e que causem prejuízo
significativo para si mesmo ou para outros.
6 Paranoia
é uma psicose que se
caracteriza pelo desenvolvimento de um delírio crônico (de grandeza, de
perseguição, de zelo, etc.), lúcido e sistemático, dotado de uma lógica interna
própria, não estando associado a alucinações.
7 Cortisol é um hormônio
corticosteróide produzido pela glândula supra-renal que está envolvido na
resposta ao estresse; ele aumenta a pressão arterial e o açúcar do sangue, além
de suprimir o sistema imune.
8 Texto em itálico foi retirado do site →
http://www.qmc.ufsc.br/qmcweb/artigos/neuroquimica.html
9 A hipocondria,
também conhecida por nosomifalia, é um estado psíquico em que a pessoa
tem crença infundada de se padecer de uma doença grave.
10 Síndrome
de Münchausen ou Transtorno factício é uma desordem psiquiátrica em
que os afetados fingem doença ou trauma psicológico para chamar atenção ou simpatia a eles.
11 Eutimia - do grego eu = normal + timo =
humor - é definido por Demócrito como um estado de equilíbrio no humor e por Sêneca como um estado de tranquilidade, um ponto de
estabilidade entre o humor deprimido e o humor eufórico.
12 Texto em itálico
foi retirado do livro → BERK, Lesley; Guia para cuidadores de
pessoas com transtorno bipolar; São Paulo: Segmento Farma, 2011.
FONTE: ARAÚJO, Denio Medeiros de; SIMPLESMENTE BIPOLAR; 1º
Edição Digital, Caicó: Editora Blogger, 2016.