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domingo, 21 de agosto de 2016

CAPÍTULO 3: VALORES SOCIAIS E COLIFORMES FECAIS

          As privadas nos banheiros modernos saem do chão como a flor branca do nenúfar. O arquiteto faz o impossível para que o corpo esqueça sua miséria e para que o homem ignore o que acontece com os dejetos de suas entranhas quando a água da caixa os leva gorgolejando cano abaixo. Os canos dos esgotos, ainda que seus tentáculos cheguem até nossos apartamentos, são cuidadosamente escondidos de nossos olhares e nada sabemos acerca dessas invisíveis Venezas de merda sobre as quais estão construídos nossos banheiros, nossos quartos de dormir, nossos salões de festa e nossos parlamentos. 13

Nunca entendi porque na ocasião da minha primeira crise maníaca/hipomaníaca fui extremamente incentivado a abandonar o meu curso de Ciências Contábeis. Contudo, na minha primeira crise depressiva todos me aconselharam a não abandonar o emprego. Nunca aceitei muito bem a prioridade que o dinheiro tem nas nossas vidas. Vivemos e morremos pelo dinheiro, mas somos incapazes de enxergar o valor que existe no conteúdo de um livro. Não só de pão vive o homem, mas de toda porcaria que o dinheiro pode pagar. Uma doença que subverte os valores sociais é considerada uma grande ameaça, enquanto que as drogas lícitas e ilícitas continuam matando e ninguém faz nada para parar a matança.
Houve uma ocasião em que deixei um livro de literatura clássica num banco de praça e apostei com um colega meu em quanto tempo o livro seria subtraído por algum marginal.
O mesmo dinheiro que compra a felicidade de alguns também promove a infelicidade de muitos. Valores cristãos como a caridade são simplesmente subestimados por pessoas materialistas que habitam um mundo materialista. Mal sabem elas que muitas pessoas espalhadas por todos os continentes de nosso planeta dependem única e exclusivamente da caridade para sobreviver e são profundamente agradecidas pelo simples fato de ter um pedaço de pão para comungar. Assim, o ideal da concentração de renda torna-se o principal inimigo da prática da caridade.
       Durante toda a história da humanidade podemos constatar a presença do sentimento de ingratidão. A ingratidão está presente inclusive entre os povos considerados mais miseráveis. Apesar disso, uma grande parcela das pessoas em situação de risco social conserva dentro de si o sentimento de profunda gratidão por ser alvo da caridade humana. Nem sempre o pão é repartido em gesto de comunhão fraterna, mas o sentimento de gratidão está quase sempre presente no coração de quem acolhe o que lhe é ofertado.
Recentemente, tive a infelicidade de derrubar acidentalmente um pote repleto de bolachas. Na oportunidade comentei com um amigo que estava próximo: “No continente africano o povo oprimido não se importaria em comer as migalhas das bolachas que caíram no chão de nossa cozinha. As migalhas poderiam estar sujas por bactérias altamente nocivas ou manchadas pelo sangue de algum inocente, mas, mesmo assim, não faltariam bocas para comê-las. Perdão Senhor Deus pelo pecado que acabei de cometer! Obrigado Senhor Deus pelo simples fato de poder dar-me ao luxo de jogar no lixo o alimento que mataria a fome de centenas de pessoas”.
Um amigo uma vez me falou: “Temos que ser profundamente gratos pelo Dom da Vida. O simples fato de estarmos vivos pode ser considerado por alguns como sendo um milagre. Apesar da maioria achar que a vida é um acidente, quando o assunto é ser humano nada acontece por acaso. Todos nós temos um importante papel na construção do Reino de Deus. Uma pessoa com transtorno mental pode ser inserido no seio de uma família para tornar essa família mais tolerante e menos preconceituosa. Da mesma forma, uma pessoa com alguma enfermidade pode aprender lições valiosas através convívio familiar”.
Alguns amigos meus acham bastante inconveniente ouvir pessoas reclamarem das filas dos bancos, quando estas pessoas possuem um saldo na conta corrente capaz de fazer muitos miseráveis felizes. Realmente, existem muitas pessoas capazes de entrar num estado de profunda histeria ao se depararem com uma fila de banco. Posso ser considerado suspeito ao falar isso, afinal de contas uma pessoa com transtorno bipolar apresenta, muitas vezes, temperamento difícil, mas torna-se evidente o fato de que essas pessoas (ditas normais) presentes nas filas dos bancos não aprenderam a exercitar a paciência. É inacreditável ver pessoas ficarem caladas diante de uma fila enorme destinada única e exclusivamente à compra das senhas (entradas ou ingressos) para os shows de bandas famosas. Pessoas normais fazendo um sacrifício enorme para assistirem o show de suas vidas. Creio que o contraste entre as duas situações deve-se ao fato da raridade do show e do prestígio do artista ser diretamente proporcional à banalidade de se pegar uma fila de banco.
Um cachorro não se importa em morar numa casa modesta ou numa mansão, andar sobre quatro patas ou sentado confortavelmente no banco de um carro, comer os restos do almoço ou sentir o maravilhoso sabor de um suculento pedaço de filé mignon (que faria qualquer miserável lamber os beiços). Um cachorro é capaz de ficar feliz e realizado com uma simples manifestação de carinho. Uma brincadeira no parque faz um simples graveto tornar-se uma das sete maravilhas do mundo. Para um cão não interessa se o dono é rico ou pobre, bonito ou feio, doente ou saudável, idiota ou esperto. Uma das virtudes que faz os cães serem tão especiais é o amor contido em cada gesto. O dono o ama condicionalmente e ele simplesmente retribui tal sentimento com um amor incondicional sem nem questionar o mérito do dono. Um cachorro de estimação é capaz de fazer qualquer dono sentir-se especial mesmo que o resto do mundo contradiga tal sentimento. Talvez se todas as famílias fossem iguais a uma matilha de cães o mundo seria mais inclusivo e menos exclusivo.
Um dos meus melhores amigos uma vez me relatou sua experiência no período em que serviu ao exercito brasileiro como paraquedista: “Sou uma das poucas pessoas a escapar com vida de um acidente envolvendo o paraquedismo. Ativei o paraquedas principal e acidentalmente o paraquedas reserva também foi liberado. Os dois paraquedas permaneceram enroscados até eu conseguir liberar com sucesso o paraquedas principal. O paraquedas reserva conseguiu preservar a minha vida, mas não impediu que a minha coluna vertebral sofresse sérios danos devido ao impacto com o solo. Sou profundamente grato a Deus por estar vivo e poder contar essa história aos meus netos, mas no momento da queda Deus foi à última coisa que passou pela minha cabeça”.
Espero não ser considerado hipócrita, mas também sou profundamente agradecido por Deus ter me abençoado com uma família tão provinciana. A experiência de conviver com pessoas tão fechadas e conservadoras permitiu uma abertura da minha mente e ampliou meus horizontes.
O conhecimento tão negligenciado pela maioria das pessoas tornou-se a minha pedra angular e o meu calcanhar de Aquiles. Considero a prática uma das amigas mais próximas da perfeição e a teoria presente nos livros pode se tornar vazia se não for exercitada exaustivamente. Tenho convicção da importância do conhecimento para a formação de uma prática pautada na saúde e no bem estar. Contudo, desenvolvimento cognitivo alto nem sempre pode ser considerado saudável. Alguém pode ter uma capacidade enorme de absorver informações e conhecimentos, mas não tem os atributos emocionais necessários para colocar em prática tudo que assimilou. Na verdade, tenho a ligeira impressão que o conhecimento da perturbação mental está assimilando-me por completo. O corpo pode assimilar o remédio e trazer a cura, por outro lado, o veneno pode assimilar o corpo e trazer a morte.
Não existe exclusividade nos sentimentos humanos, exceto quando a pessoa é acometida por alguma doença limitadora da capacidade de sentir emoções fortes: autismo e síndrome de asperger.
Uma vez ouvi alguém comentar: “O sorriso e a lágrima são expressões universais de alegria e tristeza”. Entretanto, há uma grande diferença entre o conteúdo e a forma. Um sorriso pode ser lindo por fora, todavia carente de sinceridade por dentro. Uma lágrima pode ser tímida, mas repleta de significado.
A falta de gratidão por tudo que nos foi dado gratuitamente por Deus é o que mais me provoca nojo. Tenho a ligeira impressão que também faço parte dessa família de ingratos?! O descuido no uso das palavras pode ser um sinal de ingratidão. As pessoas não entendem o quanto as palavras ferem e dificilmente escondem o vocabulário afiado. No entanto, a presença de fuga de ideias é algo bastante comum em pessoas com transtorno afetivo bipolar. Muitas vezes um raciocínio eivado de fuga de ideias torna-se totalmente equivocado e gera muitas reclamações por parte das pessoas que preconceituosamente julgam as palavras proferidas pela pessoa portadora de bipolaridade. Não é querendo me gabar, mas, independentemente da opinião dos psicólogos e psiquiatras, uma pessoa com transtorno bipolar é alguém especial que necessita de um tratamento diferenciado. Qualquer palavra direcionada a pessoa com bipolaridade pode atingir diretamente o emocional e causar danos irreparáveis a referida pessoa.
As palavras que mais fizeram doer meu coração foram ditas por ocasião da minha primeira grande crise depressiva. Lembro-me, como se fosse ontem: “Agora somos apenas nós dois e mais ninguém”. Graças a essas palavras, não me sentia mais parte integrante da minha própria família. Uma instituição que poderia dar o suporte necessário para que eu conseguisse vencer mais um momento de crise... Mais um... Mais dois... Mais três... Mais mil... Mais ... Talvez a paciência não seja uma das nossas mais valiosas virtudes... É como dizem: “PACIÊNCIA tem LIMITE!” No caso de algumas pessoas e/ou famílias esse limite é facilmente alcançado. Às vezes, sinto-me culpado pela falta de paciência dos meus AMIGOS, FAMÍLIA, PSICÓLOGO, PSIQUIATRA, SOCIEDADE, MERCADO DE TRABALHO, enfim, nem eu tenho mais paciência comigo mesmo... O que deve ser feito para corrigir essa visão distorcida dos outros para com o portador de bipolaridade e do portador de bipolaridade para consigo mesmo é uma dissociação do PECADO e do PECADOR. Somos pessoas com DIREITOS (quase sempre não respeitados) e DEVERES (com tratamento adequado o bipolar consegue cumpri-los). Com o tempo a compreensão bate a porta do nosso quarto que antes vivia “eternamente” fechado... Com o resultado dos tratamentos (psicológico e psiquiátrico) as coisas tornam-se menos URGENTES e mais MALEÁVEIS, podendo ser alcançadas e/ou conquistadas sem maiores atropelos... O tempo cura... Deus faz brotar o sopro do ESPÍRITO SANTO no coração daqueles que não tem o discernimento necessário para compreender a grandiosidade da sua obra... Assim, o PECADO é PERDOADO e o PECADOR torna-se SANTO... Sim, pelo menos por alguns instantes isso é VERDADE... O tempo cura... A paciência é um atributo inerente ao TEMPO! Portanto, tenhamos paciência para com aqueles que a merecem... Sabendo que o LIMITE da nossa paciência pode não ser suficiente para sarar as FERIDAS ABERTAS... Mas com a certeza de que a PACIÊNCIA de DEUS está sempre disponível para curar as nossas CHAGAS...

Deus não se cansa de PERDOAR... Nós é que nos cansamos de DAR e PEDIR o PERDÃO.” (Citação retirada do pronunciamento do Papa Francisco realizado logo após a Bênção do Ângelus do dia 17 de março de 2013)

O sentimento provocado por ser alvo da artilharia verbal de pessoas alheias ao conhecimento e tratamento da bipolaridade faz tanto estrago quanto ser tratado como um idiota por falar o que pensa sem ponderar todas as possibilidades. Com isso, surge um enorme vazio interior que pode desencadear crises depressivas gravíssimas. Já me ocorreu de tentar, por inúmeras vezes, calar a minha boca, mas o transtorno bipolar insiste em mantê-la em movimento constante. Também procuro fechar os ouvidos e não dar muita atenção às críticas que suscitam em mim um pensamento contaminado pela ideia do suicídio. Foi sem querer, querendo?! Quando me enxergo no meio de um deserto de palavras penso quase que mecânica e automaticamente na prática de suicídio. A única coisa que me segura quando esses pensamentos invadem minha alma é uma idéia muito simples e fácil de compreender: “Minha vida é infinitamente mais valiosa para Deus do que o meu suicídio seria conveniente para minha família”.
Creio que uma pessoa emocionalmente fragilizada seja um peso enorme para uma sociedade e, principalmente, para um núcleo familiar. Valores temporais e sociais, como o dinheiro, o trabalho, a profissão, a família, as regras, a moral e a ética, perdem o sentido quando interpretados sob um ponto de vista bipolar.
As palavras de uma amiga minha nunca me saíram da cabeça: "Em seu infinito amor o Pai quis escolher almas esposas para o Seu Divino Filho. E para isso não escolheu as melhores, as mais belas, mas, a fim de manifestar a Sua Glória e Seu Poder, resolveu escolher as mais pecadoras, as mais fracas, os vasos de argilas, para aí realizar sua grande obra. Toda Glória pertence assim, Aquele que nela tudo realizou!" Tenho esperança que o pesado fardo carregado pela minha família tornar-se-á leve diante da presença de Deus. A fé é o único e verdadeiro valor que carrego na bagagem da minha vida. Contudo, a minha vida não é somente minha. Constantemente, sou abordado por familiares que exigem uma contrapartida ao investimento (boa educação, saúde, alimentação, higiene, etc.) que foi realizado em mim. Sempre confiei que o amor de uma família fosse incondicional, mas vejo claramente que o amor incondicional é um privilégio de Deus. Tenho a convicção que se a minha bagagem espiritual não for substancialmente agradável aos olhos da minha família e suficientemente forte para me fazer vencer aqui na Terra que, pelo menos, meu sacrifício seja agradável aos olhos de Deus lá no Céu. Quando falo em sacrifício... Não estou me referindo ao sacrifício da morte, mas ao simples Dom da Vida.
Se o ser humano for despido de tudo que o dinheiro pode pagar e o coração é capaz de sentir somente restará o vazio interior. As pessoas ditas normais dificilmente são afetadas por esse sentimento de vazio, pois neles habitam os atributos necessários para conquistar o pão (Pão) nosso de cada dia. Graças a esse aspecto, presente na grande maioria da população considerada normal, reina um enorme temor com relação à morte. Para muitos a morte traz um sentimento de vazio que atributo nenhum é capaz de vencer.
Quando a pessoa não possui os atributos necessários para ser útil e/ou encher os bolsos de dinheiro, o trabalho torna-se uma fonte inesgotável de preocupação. Nesses termos, podemos considerar o trabalho um agente estressor quando o vazio interior deixa de ser um risco iminente e transforma-se numa realidade presente. Minha depressão deve-se ao surgimento da preocupação em manter os bolsos cheios e o coração vazio.
Uma pessoa com transtorno bipolar não pode dar garantias de sucesso profissional. Sem sucesso profissional o ser humano torna-se descartável. No melhor dos cenários a pessoa considera-se um peso para a família. No pior dos cenários o paciente com transtorno bipolar torna-se o que tem e o instinto de sobrevivência é seriamente comprometido.
Muitas pessoas, acometidas pela bipolaridade, perdem a oportunidade de crescerem profissionalmente e são mal vistas por causa dessa falta de iniciativa. Existe um verdadeiro exercito de pessoas que depositam a fé quase que totalmente na prática da caridade. Numa sociedade onde os direitos humanos quase sempre são desrespeitados um simples prato de comida acompanhado de um copo de água pode custar mais caro do que o sangue que corre em nossas veias.
       Ninguém gosta de viver da caridade dos outros e o meu pensamento não difere muito do pensamento da maioria. No entanto, a instabilidade emocional, proporcionada pelo sentimento de que uma crise bipolar pode acontecer a qualquer momento, condiciona a pessoa com transtorno bipolar a pensar na impossibilidade de sucesso profissional. É como um jogador de futebol que quebra a perna ou machuca-se gravemente... Dificilmente o atleta voltará a praticar o esporte da mesma maneira que outrora. Movimentar o órgão lesionado torna-se uma guerra de nervos. O jogador de futebol poderá economizar nas divididas com receio de uma nova lesão. Com a bipolaridade ocorre algo parecido. A pessoa com bipolaridade pode se sentir impotente diante de alguns desafios impostos pela sociedade ou pela vida e, simplesmente, recusar-se a assumi-los com medo de novas recaídas. A bipolaridade muitas vezes alimenta uma espécie de autossugestão: a pessoa toma medicamentos controlados para se manter em equilíbrio e acha que está tomando cápsulas de farinha (efeito placebo). Com isso, o trauma deixado pelas crises bipolares pode impedir a realização de alguns sonhos pessoais, como manter-se no emprego, perseverar nos estudos, cultivar relacionamentos amorosos duradouros, etc. O entusiasmo diante de um desafio dá lugar à apreensão motivada pela iminência de um possível fracasso. Apesar disso, a pessoa com bipolaridade não tem o direito de estragar a própria vida. Os pais têm que enxergar um parceiro no filho e não o filho viver eternamente dependente dos pais.


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13 Texto em itálico foi retirado do livro KUNDERA, Milan; A Insustentável Leveza do Ser; São Paulo: Editora Record, 1983.




FONTE: ARAÚJO, Denio Medeiros de; SIMPLESMENTE BIPOLAR; 1º Edição Digital, Caicó: Editora Blogger, 2016.

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